domingo, 6 de novembro de 2016
sábado, 29 de outubro de 2016
e-mail a um amigo querido
Transcrevo um e-mail que acabei de enviar.
Oi querido,
Estava querendo escrever antes, mas com as crianças correndo
pela casa, escrevo tudo errado. Bem, agora que tive mais tempo de meditar sobre
o assunto, e iluminada pelas orações, ouso dizer o seguinte.
O processo de imanentização no Ocidente, que é bastante
claro na obra de Espinosa, acabou por reivindicar o caráter natural, depois
histórico, depois sociológico, depois cultural, depois psicológico e assim vai,
dos fenômenos. Não quero dizer que não existam aspectos naturais, sociológicos,
históricos ou culturais nos acontecimentos, mas que o Ocidente, por sua
arrogância, tendeu a acreditar que estas formas de redução seriam capazes de
dar conta do conjunto, da Totalidade, e é óbvio que isso, mais cedo ou mais
tarde, desembocaria nas diversas formas de totalitarismo político e
epistemológico do século XX.
Se a infalibilidade não está ligada também a inefabilidade,
como isso não poderia acontecer? Parece-me óbvio que a infalibilidade da razão,
da história, da psique, ou seja lá do que for, conduzem inevitavelmente ao
totalitarismo da natureza, razão e da história e, obviamente, a todas estas
aberrações do século XX que falavam em leis da história, em leis naturais que
justificavam eugenias , e por ai vai.
Quando vejo que bastaria a nós conhecer a tradição grega
cristã, que bastaria meditá-la, amá-la e respeitá-la para evitar tudo o que foi
feito contra o homem nos últimos séculos... dói -me o coração o tamanho de
nossa burrice. Alguém pode dizer: bastaria conhecer Cristo, e eu concordaria.
Mas não se conhece Cristo, em plenitude, fora de sua Igreja.
Abraços,
rochelle
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Como o problema é bem mais embaixo
Não vejo, sinceramente, como o tomismo não poderia dar vazão
ao espírito humanista que se seguiu após a escolástica. Para mim, como eu já
disse muitas vezes, o humanismo é consequência inevitável da analogia entis que ao invés de conceber
Deus como o Ente inacessível por sua essência e acessível por suas energias,
acabou por colocar Deus como imagem e semelhança do homem a partir do conceito
de analogia. Isso é óbvio: como podemos fazer analogia com o inacessível? Ou
seria falando do homem como em si inacessível, que é o que faz a teologia
ortodoxa, ou falando de Deus como se fala do homem, que é o que faz tanto o
catolicismo quanto o protestantismo. Espinosa viu no deus escolástico um deus antropomórfico,
e esta intuição de Espinosa, contra a qual lutei com todas as minhas forças,
estava absolutamente certa.
O catolicismo romano é apenas a continuidade da filosofia e
metafísica platônica e aristotélica, as quais deram origem a uma série de
heresias e não a sua transfiguração, como em São Dionísio. Com São Dionísio o
helenismo se cristianiza e se transfigura. Com Agostinho, São Tomás, temos
apenas a continuidade do pensamento grego, injetando-se nele uma certa
concepção trinitária (a qual é tão inflexível quanto o Uno plotiniano) , na
qual as pessoas divinas estão subordinadas a uma unidade que é a priori
garantidora delas. Por isso mesmo o Filoque: o Filioque não seria as relações
internas que se estabelecem entre duas pessoas engendrando-se uma terceira? Não
existe nele uma primazia da Unidade em detrimento das pessoas?
Por isso estas vertentes perenialistas dentro do catolicismo
romano, que acreditam existir uma filosofia perene a qual se consumaria com o
cristianismo. O cristianismo teve uma sabedoria inclusiva não no sentido de
sair incorporando tudo, mas no sentido de ir transfigurando aquilo que poderia,
de certo modo, servir como prenúncio da deificação da carne, sua
transfiguração, que é o que está por trás da vida sacramental. Assim, eu não
vejo, sinceramente, como uma concepção perenialista não possa conduzir, inevitavelmente
a certo ecumenismo, ainda que o cristianismo possa ser sua palavra final, seria
um jeito de se conseguir uma unidade transcendente de tudo, um jeito pagão e
não cristão de se resolver as coisas.
A cada dia que passa eu me convenço de apenas uma coisa: só
existe uma fé verdadeira, a ortodoxa. Existem cristãos que mesmo no erro, por
pura misericórdia de Deus, possuem acesso a estas energias devido mesmo ao seu
alto grau de esforço de viver em comunhão com Deus. Mas o catolicismo romano é
tão errado quanto o protestantismo, uma vez que não poderia não ter a ele como
consequência necessária. Não nasceu o nominalismo no seio do próprio
catolicismo? Não fora Guilherme de Ockam discípulo de Duns Scotus? O dogma da
Imaculada Conceição, pensado por Duns Scotus, não mostra que Maria, toda pura,
fora santificada e transfigurada pelo próprio Verbo Encarnado, mas como pura e
santa independente dele. Neste dogma não vemos a deificação da matéria, apenas
uma visão gnóstica na qual a matéria, que deveria ser impura, teve uma origem
diversa de qualquer outra, sendo esta matéria não mais impura. Como seria então
matéria? Parece-me que é quase dizer que Maria teria outra matéria que não a
nossa, uma espécie de eón, quando não parece que ela seria o próprio Espírito
Santo, reproduzindo-se, assim, a trindade pagã de Horus, Isis e Osiris, Pai,
Mãe e Filho. Estou convencida a estudar mais profundamente o tomismo para poder
refutá-lo com Gregório Palamas. O sentido dos meus estudos tem sido este.
O empirismo naturalista de São Tomás é uma
grande saída filosófica se estamos num universo pagão e grego, pois é a
consumação do próprio aristotelismo, mas é nada perto de tudo o que a Teologia
Mística nos oferece enquanto experimentação das energias divinas, e o próprio
Tomás se deu conta disso. Em suma, percebo que existem almas santas que querem
dialogar com o catolicismo romano, tentando aprender algo com os católicos, mas
vou ser bem sincera. Como alguém que conhece bem além da média o catolicismo
romano e que está começando a conhecer a ortodoxia, só existe uma única saída:
o retorno às origens. A ortodoxia é a casa sobre a Rocha, o Cristo. E sendo
assim, ela conseguiu se manter inabalável.
Perdoe-me se minha visão é por
demais fechada: esta ideia de que romanos, protestantes e ortodoxos se entendem
em termos místicos não me convence. Seria o mesmo que entrar na esparrela de
Thomas Merton de que budistas, hinduístas e cristãos se entendem num sentido
místico. Ou se está com Cristo, a rocha da ortodoxia, ou se está com o mundo,
mesmo que o mundo possa produzir também um tipo específico de misticismo.
Porque quando falo de “mundo” não falo de coisas materiais, mas do espírito do
mundo. Enquanto o catolicismo romano é apenas a continuidade da filosofia
grega, não tem como não cair no gnosticismo no qual entraram todos aqueles que
deram um peso maior ao platonismo e ao aristotelismo, mesmo que se tratando de questões
cristãs.
Conhecimento e Vida
A maioria das pessoas busca conhecer apenas para preencher um certo apetite natural por conhecimento.
Nossa experiência com o conhecimento deveria ser a de sermos mobilizados por ele a fazermos algo, a sairmos do marasmo, a revolucionarmos nosso próprio modo de existência.
Não se pode ter uma relação com o desconhecido como tem o turista, que o vê de longe como coisa pitoresca, tira umas fotos e depois junta-os a uma coleção artificial.
Mas tem de ser como de um aventureiro, como foram os navegantes portugueses, que sai em busca de algo novo e precisará se alojar neste novo e encontrar ali um outro modo de vida.
Conhecimento e vida são indissociáveis. A mentalidade liberal, no entanto, o considera como uma mercadoria como qualquer outra e, assim, busca reproduzi-lo para fins de apetição e não de auto transformação.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
A educação dietética e física: para tudo, autoconhecimento é pressuposto e meta
A educação dietética e física: para tudo, autoconhecimento é
pressuposto e meta
Os antigos
gregos sabiam que a educação do corpo, que passava pela música e pela
ginástica, era imprescindível sem uma dietética, ou seja, sem uma alimentação
adequada. Ainda que existam muitos profissionais da nutrição e alimentos que
hoje nos sejam oferecidos como saudáveis, a bem da verdade é que a alimentação
saudável parece ser aquela com o máximo de produtos in natura, ou seja, sem que tenham passado por qualquer processo de
industrialização, que eles sejam variados, de várias cores, numa quantidade não
muito grande, para não dar vazão à gula e nem muito pequena, para poder dar
força e energia para o enfrentamento da vida. Deve-se comer tanto alimentos de origem
animal quanto vegetal, priorizando os vegetais quando se deseja passar por
algum processo de desintoxicação mais severo, ainda que atividades físicas
ajudem muito nisso também.
É sim
necessária uma educação alimentar, e é sim necessário que determinados
alimentos e práticas sejam evitados, ou exercidos apenas de forma muito
moderada. É óbvio para qualquer um que um corpo intoxicado por alimentos
industrializados, sem o consumo regular de folhas, legumes, castanhas, nozes, brotos,
grãos, frutas e outras benesses dadas pela Natureza vão sempre estar mais
cansados, mais fáceis de adoecer e incapazes de bem exercer a atividade
intelectual. Por outro lado, estamos tão viciados em alimentos ruins e sem
qualquer valor nutricional mas com alguma carga de valor afetivo e emocional,
que não seria fácil nos livrarmos deles, pois adoeceríamos de outras formas não
físicas. Para tais casos, acho prudente o seu consumo moderado: é como se
alguém te dissesse assim. Tudo bem, consuma-o, mas bem pouco, não se deixe
viciar totalmente por ele, pois ele é perigoso.
Foi
assim e é assim o cigarro para mim. Tenho uma cota de cigarros permitidos por
dia e faz mais de dez anos que sigo esta cota. Não fumo mais que dois cigarros
por dia, um após o almoço e outro após o jantar. Se chego a fumar três, isso é
uma exceção. E nos dias em que faço jejum, quartas e sextas, procuro não fumar,
ainda que muitas vezes eu não o consiga. E existem dias que nem me lembro de
fumar. Eu sei que não é o ideal, mas foi o que eu consegui para mim. A
sabedoria exige que a gente vá aprendendo a saber como conjugar nossos defeitos
de modo a não nos prejudicar totalmente e a gozar de certos prazeres que,
embora nocivos, se forem completamente extirpados, podem nos trazer males de
alma.
Não
consigo seguir nada à risca. É um problema de temperamento. Fora as orações que
me são prescritas e os jejuns de quarta e sexta, não consigo ser disciplinada com
nada. Sabe Deus como consegui fazer coisas na vida. Mas com relação a este meu
vício, eu nunca conheci ninguém mais disciplinado do que eu.
O
processo de autoconhecimento precisa ser estar imanente a qualquer outro
conhecimento que se adquira. Não basta você saber se algo é bom ou ruim, se é
benéfico ou não em si mesmo. Isto só tem sentido quando puder ser aplicado à
sua vida, quando puder fazer algum sentido maior para você. Não se trata de subjetivismo,
mas de saber que não há vida para o objeto se não houver relação simbiótica
entre ele e o sujeito. Quanto mais você se conhece, mais poderá usufruir melhor
do conhecimento que adquire, mais poderá também selecionar que tipo de
conhecimento fará mais sentido para você e quais são aqueles saberes que lhe
colocam numa situação mais ativa e expandirão a sua consciência.
O que
mais tenho ouvido são pessoas dizendo: "o que eu devo estudar?". Eu não posso
dizer o que uma pessoa deve estudar, porque isso exigiria que eu a conhecesse
muito bem. Tudo o que eu recomendo a ler são livros que desafiaram a minha
inteligência e que provavelmente poderão surtir efeitos semelhantes nas demais
pessoas: mas isso é pouco. Procure conhecer-se melhor, ver no que tem
verdadeira aptidão e selecione também, que tipo de conhecimento lhe é doloroso
mas exigirá de você disciplina e estudo e lhe expandirá a inteligência após tê-lo adquirido. Estudar uma língua ajuda muito nisso, pois exige de você sair de si.
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Só um breve comentário
Perdoem-me a intromissão, mas o que eu vejo no catolicismo romano é um divórcio inconciliável entre a tradição e o evangelho, que só consegue mesmo ser conciliado por almas muito santas, mas não pela maioria dos católicos. Não se deve ter de fazer a opção entre um e outro: ambos constituem o munus sagrado que foi confiado aos apóstolos, de modo que deveriam estar totalmente implicados um no outro.
Gosto de usar o véu como um símbolo de resistência anti secular, mas gosto sobretudo da mansidão e da misericórdia também que são pregadas pelos papas pós conciliares. Admiro quem consegue ser bom católico: eu o tentei e vivi um inferno, porque ou eu optava pela Tradição ou pelo Evangelho.
Estas querelas no catolicismo romano me parecem infindáveis e acabam por agredir o sentido mesmo da catolicidade que também deveria estar na Tradição. Minha única saída foi tornar-me cristã ortodoxa. Foi a melhor coisa que fiz.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Cuidado com os que se julgam especialistas em educação
A educação tem sido uma arma poderosa na busca por ampliação da condição de sujeito (quem é o sujeito, ou quem são os sujeitos?), da intersubjetividade (como elaborar um conhecimento cujo sentido diga respeito a todos nós?) e também da emancipação (como podemos nos livrar das diversas amarras que nos prendem a sistemas totalitários de análise e poder?).
Mas de todas estas perspectivas, uma chama muito profundamente a minha atenção: é a questão da ampliação da consciência. O que é uma consciência ampliada? Não conheço ninguém que julgue não ter uma consciência ampliada, mas a verdade é que quase todos nós temos uma consciência muito restrita e reduzida às nossas experiências. Desta forma a leitura, principalmente da literatura e da filosofia, bem como viajar, conhecer e ouvir a boa música, procurar assumir diferentes papéis sociais, conhecer todo o tipo de gente e ter coragem, são pressupostos necessários indispensáveis para a ampliação da consciência.
Pode-se muito bem usar-se o jargão de ampliação da consciência para se vender uma ideia, uma ideologia, apenas por ela ser nova. Creio que estamos num processo ininterrupto de busca desta ampliação, mas se não nos atermos a estes pressupostos o risco que corremos é de ficarmos apenas repetindo fraseologias, não mudarmos nada de substancial em nós e fazermos da educação uma panaceia, que na verdade funcionaria apenas como um placebo.
O processo de autoeducação vai além de discussão de políticas educacionais, ou modelos de gestão educacional, ou mesmo de inclusão de temas e de sujeitos, ainda que isto tudo seja sumamente importante. O processo de autoeducação visa você se tornar um indivíduo cuja erudição irá mudar substancialmente a sua vida e dos demais à sua volta, proporcionando-lhes uma compreensão mais integrada dos fenômenos, suas causas, implicações e aberturas e principalmente, um indivíduo cuja autoconsciência não seja apenas social ou histórica, mas uma autoconsciência ontológica e integrada ao sentido último da sua própria vida. Quem tem nos proporcionado isto? Que escola o tem feito? vejam que os mestres da Antiguidade prometiam isto aos seus pupilos. A resposta, não se podendo mais oferecer uma educação que nos transforme ontologicamente, oferecemos com o nome de educação apenas uma série de conteúdos que podem se revelar pragmaticamente úteis para a manutenção do próprio sistema que nos sufoca.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Anotações e Citações do livro “O inconsciente espiritual” de Jean-Claude Larchet (LARCHET, J. C. O inconsciente espiritual. São Paulo, Loyola, 2009).
Anotações e Citações do livro “O inconsciente espiritual” de
Jean-Claude Larchet (LARCHET, J. C. O
inconsciente espiritual. São
Paulo, Loyola, 2009).
“As doenças psíquicas não se identificam com as doenças
espirituais: trata-se de doenças de natureza diferente, e convém manter a distinção
entre elas.” (pag. 14)
“As doenças espirituais possuem uma origem sui generis.
Algumas doenças físicas ou algumas doenças psíquicas certamente podem oferecer,
às vezes, um terreno favorável a seu desenvolvimento, mas não podem ser sua
causa.” (pag. 15)
“Devemos cuidar de não subavaliar (e, a fortiori, de negar)
a etiologia corporal (biológica ou fisiológica) das doenças psíquicas, como
algumas psicoterapias são tentadas a fazê-lo. Algumas doenças psíquicas podem
ter uma etiologia puramente somática, mesmo se elas fazem intervir, quanto às
suas formas de expressão, fatores psíquicos e até mesmo espirituais. Por outro
lado, algumas dimensões da doença podem ser corporais, enquanto outras são
psíquicas e espirituais”. (pa. 16)
“Como mostramos no capítulo que lembra os grandes princípios
da antropologia cristã, esta concebe a relação com Deus como aquela que define
o ser humano em sua natureza e em sua existência pessoal. Considera por isso
que as diferentes faculdades humanas são naturalmente orientadas para Deus e
que seu exercício é contra a natureza e anormal quando a pessoa o realiza em
outro sentido. Por este exercício contra a natureza das faculdades humanas
formam-se as paixões, as quais constituem doenças espirituais que devem ser
propriamente distinguidas das doenças psíquicas: assim como as paixões não são
doenças psíquicas, tampouco as doenças psíquicas são paixões”. (pag. 17)
“A desarmonia introduzida pelas paixões no exercício de
nossas faculdades é uma desarmonia não somente espiritual, mas psíquica. Isto
significa que toda doença espiritual gera uma perturbação psíquica
correspondente ”. (pag. 18)
“As doenças espirituais correspondem a paixões que os Padres
qualificam de ‘culpáveis’. Afirmar que as doenças espirituais desempenham um
certo papel no nascimento, no desenvolvimento ou na subsistência de algumas
doenças psíquicas não significa, no entanto que aqueles que são atingidos por
doenças psíquicas sejam mais culpados ou mais pecadores do que os outros.”
(pag. 19)
“O ser humano decaído é necessariamente habitado pelas
paixões, se bem que elas se encontram em proporções diferentes nos diferentes
indivíduos. Como acabamos de ver, podemos dizer que cada pessoa desenvolve uma
patologia psíquica relativa à sua patologia espiritual. Mas na maioria dos
seres humanos essa patologia psíquica é equilibrada, de modo que não se
manifesta na forma de perturbações perceptíveis ou de doenças identificáveis”.
(pag. 19)
“Mesmo quando reconhecemos que algumas doenças psíquicas
dependem de uma terapêutica espiritual na medida em que elas dependem de causas
espirituais, não se trata para nós de afastar as terapêuticas espirituais para
fazer terapêuticas psíquicas (...). A natureza e a finalidade das terapêuticas espirituais
devem ser absolutamente respeitadas, tanto mais que nelas intervêm como fonte
de cura a graça e seu vetor, os sacramentos, o que significa que elas são
indissociáveis do domínio sobrenatural e do domínio de vida eclesial. Os dois
domínios saem dos limites de uma terapêutica ‘profana’ e excluem uma
instrumentalização em proveito de fins exteriores e inferiores”. (pag. 20)
“o ser humano é destinado por natureza a se tornar deus por
graça” (pag. 23)
“Assim, a inteligência em sua forma intuitiva (nous) e em
sua forma racional (logos) é feita para conhecer Deus; a faculdade desejante
(epithumia, epithumetikon) é feita para desejar Deus e amá-Lo; o poder
irascível ou ardor (thumos) é feito para combater o mal, afastar as tentações e
lançar mão do zelo de que necessita a vida espiritual; a vontade é feita para
se conformar com a vontade de Deus e realizar seus preceitos; a memória é feita
para se lembrar de Deus; os sentidos e a imaginação são feitos para servir de
base à contemplação...” (23 e 24)
“Por um desvio e uma perversão de suas faculdades de
conhecimento, o ser humano substitui o conhecimento de Deus e a contemplação
das criaturas em Deus pelo conhecimento das criaturas fora de Deus e somente em
suas aparências sensíveis. Por um desvio de sua faculdade desejante e de seus
sentimentos, o ser humano, em vez de desejar e de amar a Deus, pôs-se a amar a
si mesmo, fora de Deus, por uma atitude apaixonada que os Padres chamam de
Filáucia e amar as criaturas pelo prazer sensível que elas lhe davam neste amor
egoísta a si mesmo.” (pag. 25)
“Em suma, todas as faculdades da natureza humana foram assim
desviadas de seu uso original, moral e sadio para um uso perverso, contra a
natureza (para phusin), insensato (para logon), anormal e doentio. Assim, toda
a natureza do ser humano pôs-se a existir e a funcionar fora de si mesma, em um
estado não somente de alteração, mas de alienação” (pag. 26)
Doenças espirituais:
Gastrimargia (gula)
Porneia (luxúria)
Filargíria e pleonexia (avareza)
Lupe (tristeza)
Akedia (tristeza)
Orge (ira)
Phobos (temor)
Kenodoxia (vaidade)
Uperephania (independência do homem com relação a Deus).
Há, segundo São Máximo, 3 categorias de paixões:
1)
As paixões que decorrem da busca por prazer
2)
As paixões que decorrem da fuga da dor
3)
As paixões que resultam da soma destas duas
tendências
Segundo São Máximo Confessor
“o ser humano é levado a desenvolver nele as paixões más por causa de sua fortíssima
atração pelo prazer e por sua vivíssima repulsa pela dor, Teodoro de Mopsuéstia
e São João Crisóstomo sublinham que o medo suscitado pela morte incita
igualmente o ser humano a desenvolver paixões, porque elas lhe dão a ilusão de
viver intensamente e de manter em vida.” (pag. 29)
“Vários Padres notam que essa cura tomou a forma de uma
reconstrução, fazendo passar a natureza de seu modo de existência contra a
natureza (para physin) ao modo de existência conforme à natureza (kata physin)
que era a natureza original do ser humano. Ao mesmo tempo, Cristo deu àqueles
que estão unidos a Ele pelo batismo a graça de não estarem mais submissos ao
poder tirânico do pecado, do diabo, da passibilidade e da morte.” (pag. 30)
“Para progredir neste caminho da ascese libertadora, o ser
humano não está sozinho: ele é guiado pelos santos padres espirituais que
chegaram ao fim e que conheceram todas as dificuldades do caminho, e sobretudo
ele dispõe da ajuda poderosa da graça, que lhe permite ultrapassar os limites
de suas próprias forças e mesmo sair das maiores dificuldades, porque o que é
impossível ao ser humano é possível a Deus (cf. Mateus 19,26; Mac 10,27)”.
(pag. 30)
“O problema se coloca em um plano prático por causa
sobretudo das analogias evidentes entre a psicanálise e a confissão. (...) No
momento, nossa finalidade não é examinar as semelhanças e diferenças entre as
duas práticas, mas antes encarar o problema da compatibilidade da psicanálise
freudiana e do cristianismo no plano teórico de seus respectivos fundamentos
antropológicos”. (pag. 33)
“Primeiramente, para Freud como para os Padres, há uma ‘economia’
de energia: a energia necessariamente deve ser investida em algum lugar, e da
natureza, do sentido e da medida de seu investimento depende a boa ou má saúde
do ser humano.
Em segundo lugar, a vida interior do ser humano é habitada
por conflitos, e do fim de tais conflitos depende a boa ou má saúde do ser
humano.
Em terceiro lugar, o ser humano é chamado a um
desenvolvimento, no qual adquire progressivamente o domínio de si. Segundo
Freud, o ego, na parte de si mesmo constituída pelas faculdades superiores que
são a consciência e a vontade, é chamado a dominar o id (constituído, de um
lado, por elementos recalcados e, por outro lado, por pulsões sexuais e
agressivas que se expressam, originalmente, de maneira bruta desde a zona
inconsciente do psiquismo). ‘Lá onde estava o id’, escreve Freud, ‘o ego deve
advir’”. Do mesmo modo, os Padres consideram que, no ser humano, o espírito e a
razão devem dominar e governar a parte irracional da alma, sendo a temperança
(egkrateia) u das virtudes genéricas (genikai aretai) que condicionam a
aquisição de outras virtudes.
Para Freud, o crescimento interior do ser humano implica
igualmente que este, abandonando seu narcisismo originário, desenvolva laços
positivismos com seus semelhantes, e esta forma superior de afeição está na
base de uma vida harmoniosa. Tal concepção é análoga à concepção cristã segundo
a qual o ser humano deve subsistir o amor egoísta (filaucia) pelo amor ao
próximo e pelo amor a Deus.” (pag. 35 e 36)
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Sobre a superioridade da Literatura
Sobre a superioridade da Literatura sobre a Filosofia
Cansei
de estudar filosofia. Simplesmente cansei. O maior de todos os conhecimentos
não aspira nem à universalidade, nem quer falar de coisas grandes sem deixar de
se remeter também as pequenas. Não cria centros, nem despreza o periférico. Não
cria armadilhas com a linguagem, mas brinca com ela.
Cansei
de todo o castelo de cartas criado pelo mundo dos conceitos. De toda a
fortaleza que nos cria a falsa segurança do conhecimento, o falso domínio que a
tudo objetiva e não é mais capaz de olhar com amor e compaixão para os seres
que desabrocham e fenecem.
Cansei da música tola que se
entoa com todo o arsenal da dialética, que embrutece quando não mais é serviçal
da beleza.
Espero que o súbito me domine,
que a admiração me guie. Não há amor maior do que aquele que simplesmente
divaga sobre o que o seu coração sente valer a pena. Não há homem mais digno de
inveja do que aquele que vive no êxtase de amar e ser amado.
Não há mais durezas, nem
justificativas, nem crenças. Há apenas o amor que se transmuta em tantos símbolos
porque todos eles são como mônadas que resumem o todo do universo. Há mais
verdade em cada canto da criação do que em todos os livros do mundo. Há mais
humildade na Natureza do que em qualquer nobre gesto filosófico.
Cheias de amor devem ser tuas
tardes, cheias de alegria. Quanto tempo esperarás para se deixar vencer pela
beleza?! Entregue-te à mestra das mestras: entregue-te à poesia.
Verdadeira educadora dos homens,
mestra da filosofia, senhora que os poetas louvam por tomar-lhes o peito. Por
ensiná-los o que verdadeiramente é amar. Por ensiná-los a ver o singular e não
o universal.
Cansei da filosofia. Apenas
amante da Beleza quero ser. Não há nada mais maravilhoso do que estar
apaixonado e esquecido de si mesmo.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Teoria crítica
Teoria Crítica
Os conceitos de Marx e Engels serviram para teorizar e
criticar a educação na reprodução das sociedades capitalistas e para propor
projetos de educação alternativa.
Engels e Marx viveram a Revolução Industrial e o nascimento
da luta de classes. O jovem Marx e Engels perceberam que a educação junto ao proletariado estaria condenada ao fracasso, já que o destino
da maioria dos proletários ou era o misticismo ou a bebedeira. Sua teoria do
materialismo histórico foi usada para teorizar e criticar instituições
educativas na sociedade burguesa e para desenvolver concepções alternativas de
educação que estão de acordo com princípios marxistas socialistas. A mudança
das condições sociais criaria novas formas de educação, de modo que as sociedades
capitalistas produziriam instituições educativas que reproduziriam relações
sociais dominantes com seus valores e práticas. Os modos alternativos de educação
preparariam os estudantes e cidadãos para modos mais progressivos e socialistas de organização social. Marx
buscaria uma vida não alienada em que a educação seria chave deste processo.
Para Marx, a transformação das relações sociais produziriam a base para uma
nova sociedade de labor não alienado em que os indivíduos poderiam utilizar seu
tempo livre para desenvolver plenamente suas capacidades humanas e o labor
seria um processo de experimentação, criatividade e progresso. O sistema de
automação produziria bens sociais e os indivíduos poderiam aproveitar os frutos
de seu trabalho criativo, onde a educação seria parte essencial do processo de
vida.
No terceiro volume do Capital, Marx descreve esta nova ordem
social em termos de um ‘reino da liberdade’, escrevendo “Liberdade neste campo
apenas consiste no homem socializado, os produtores associados, a racionalidade
regulando sua mudança com a Natureza”.
A visão mais distinta do socialismo constitui uma quebra na
História. Enquanto o capitalismo é uma sociedade organizada em torno do
trabalho e da produção, o socialismo seria uma ordem que desenvolveria
plenamente os seres humanos. Marx formulou esta radical visão de uma nova
sociedade em seu texto “Crítica ao Programa de Gotta” como o produto de uma
transmissão da fase mais elevada do comunismo. Na visão utópica de Marx, a
educação ajudaria a desenvolver plenamente os indivíduos socializados, criaria
uma sociedade harmoniosa e intensificaria a criatividade em todas as suas
formas. No entanto, faltou uma consideração mais pormenorizada de um programa
educativo. As gerações posteriores dos teóricos marxistas desenvolveriam
teorias mais sofisticadas de teorias da consciência, comunicação e educação,
onde as subjetividades políticas poderiam ser formadas.
As gerações que sucederam Marx perceberam que o paradigma
clássico super enfatizou a dimensão de classe, e deixou de lado as questões de
gênero, raça, sexualidade e outras chaves constituintes da experiência humana.
A teoria marxista original não tratou do desenvolvimento da consciência
individual e da intersubjetividade e seu desenvolvimento na comunicação, na
ação simbólica e na cultura. Marx teria falhado ao não ter considerado a
comunicação como importante no desenvolvimento de novas formas de associação e
solidariedade. Ele colocaria, assim, muita ênfase na luta de classes, e não
tanto na democracia e na comunicação.
Marx nunca considerou a importância das instituições da
democracia liberal como uma importante herança das sociedades modernas que
deveriam ser absorvidas ao socialismo. Ele nunca considerou o uso socialista
que poderia ser feito das instituições burguesas. Deste modo, Marx tinha uma
teoria da educação e da democracia bastante inadequadas para os fins
socialistas, e por isso mesmo ele falhou ao desenvolver uma teoria da educação,
o que ficou para cargo das gerações marxistas posteriores.
Estas gerações trataram de pensar em que sentido
determinadas instituições burguesas poderiam modificar a sociedade e
transformar a consciência das pessoas.
A perda de autoridade da família garante a valorização de
outras formas de grupamento social e a valoração por meio deles. Em seu exílio
nos Estados Unidos, a Escola de Frankfurt focalizou-se no papel que os meios de
comunicação desempenhariam na educação e na socialização das pessoas. Para
alargar a pesquisa, a Escola de Frankfurt passou a se concentrar em estudos
culturais.
Os teóricos da escola de Frankfurt cunharam o termo
“indústria cultural” para significar o processo de produção em massa da cultura
e seus imperativos mercadológicos. Eles defendiam que a indústria cultural
tinha a função específica de garantir legitimação ideológica para as sociedades
capitalistas. Mediante a teoria da indústria cultural, eles foram os primeiros
a analisar os meios de comunicação de massa. Por meio deste escrutínio teórico
crítico, eles analisaram o alcance pedagógico e social da indústria cultural na
reprodução das sociedades contemporâneas, e defenderam que a cultura de massa e
a comunicação são importantes agentes de socialização e educação, mediadores da
realidade política, e devem ser vistos como as principais instituições das
sociedades contemporâneas.
Estes teóricos examinaram os efeitos da cultura de massa e o
nascimento da sociedade de consumo que poderiam servir como instrumentos da
revolução no cenário marxista. Também analisaram como a sociedade de consumo e
a indústria cultural realizariam novos tipos de pedagogia. Por conseguinte,
eles buscaram novas estratégias para a mudança política, agenciamentos de
transformação social e política, e modelos para a emancipação política que
serviriam como normas da crítica social e metas para a luta política. Este
projeto requereu repensar o projeto marxista e produziu muitas contribuições
importantes, como também posições problemáticas.
Após a segunda guerra mundial, eles passaram a investigar
meios de plena produção de subjetividades: ainda que não tenham intervindo nas
escolas, interviram fortemente nas universidades. Contra o fordismo presente na
década de 50, Marcuse escreveu sua crítica ao homem unidimensional, afirmando
que os meios de comunicação, as instituições educacionais, outras formas de
socialização estavam produzindo este tipo de homem.
Para os teóricos da escola de Frankfurt a indústria cultural
e a sociedade de consumo estariam homogeneizando as necessidades e desejos,
gerando uma sociedade de massa baseada na organização social homogênea e
acrítica. No entanto, o uso estratégico destes meios, poderia produzir a
consciência emancipada requerida para a revolução marxista. E assim, escola,
igrejas, instituições da sociedade civil, meios de comunicação são meios
importantes para este agenciamento revolucionário.
As trajetórias dos estudos culturais
Como a Escola de Frankfurt, os estudos culturais da Escola
Britância concluíram que a cultura de massa estava desempenhando um importante
papel para a produção de uma hegemonia cultural.
Ambos viram a cultura como um modo de reprodução ideológica
de hegemonia, em que as instituições educacionais e as formas culturais
ajudariam a formar os modos de pensamento e comportamento que induziria os
indivíduos a se adaptar às condições sociais das sociedades capitalistas. Os
teóricos da escola de Frankfurt e dos estudos culturais britânicos viram a alta
cultura como uma força de resistência contra a modernidade capitalista.
Desde o início, os estudos culturais britânicos viram na
alta cultura uma importante fonte de resistência contra a hegemonia cultural
massificada. Empregando o modelo Gramsciano de hegemonia e contra-hegemonia, os
estudos culturais procuraram analisar o papel hegemônico, social e cultural
desempenhado por determinadas formas de dominação
Escola de Frankfurt, Cultura e Regimes de Capital
Os teóricos da escola de Frankfurt raramente falaram
explicitamente de pedagogia, ainda que sua crítica à indústria cultural sirva
como um importante modelo dos estudos culturais marxistas e a pedagogia pode
apresentar importantes contribuições para a mudança da consciência, cultura. O
projeto era destinado à transformação social e tentou especificar forças de
dominação e resistência de modo a ajudar no processo de luta política e
emancipação da opressão e dominação.
A pedagogia crítica de Freire à América do Norte
Enquanto Dewey procurou pensar a educação como meio de
produção de cidadãos livres para a moderna sociedade capitalista, Paulo Freire
pensou na educação como meio para a prática revolucionária, no sentido forte
marxista do termo.
Por estas observações, fica bastante claro e manifesto que há um enfoque muito claro de que a educação é uma arma para fins de transformação social e não um fim em si mesmo, ou uma ferramenta de auto aprimoramento do homem.
Este texto é apenas um apanhado de anotações do capítulo "teoria crítica" retirado do livro CURREN, R. ed. A Companion to the Philosophy of Education, Melbourne, 2003. Em alguns casos há mera tradução livre.
Por estas observações, fica bastante claro e manifesto que há um enfoque muito claro de que a educação é uma arma para fins de transformação social e não um fim em si mesmo, ou uma ferramenta de auto aprimoramento do homem.
Este texto é apenas um apanhado de anotações do capítulo "teoria crítica" retirado do livro CURREN, R. ed. A Companion to the Philosophy of Education, Melbourne, 2003. Em alguns casos há mera tradução livre.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Distinções entre a educação Clássica e a Moderna
As relações entre Filosofia e
Educação
Esta aula tentará discutir estas
relações em três momentos da História da Filosofia:
1) Num
primeiro momento, na Filosofia Antiga, durante a patrística e a Escolástica
2) Num
segundo momento, a partir da Modernidade
3) Num
terceiro momento, na Filosofia Contemporânea
Palavras chaves:
1) Pensemos
que uma palavra chave para o desenvolvimento filosófico da perspectiva realista
da Antiguidade e do Medievo, concentram seus esforços na formação do homem a
partir de um ordenamento teleológico prévio. A palavra chave aqui é a Metafísica e a educação
visará reproduzir um tipo de homem que possua determinadas virtudes tanto
morais quanto intelectuais.
2) Há
duas palavras chaves importantes para pensarmos a relação entre Filosofia e
Educação na Modernidade. São elas: Matematização e Autonomia. Como autonomia pressupõe a noção de
sujeito e subjetividade, podemos dizer que estes dois termos também são muito
importantes.
3)
Há, pelo menos, três termos chaves para
pensarmos as relações entre Filosofia e Educação na era contemporânea. São
elas: Intersubjetividade, Destruição
ou Desconstrução da Metafísica e ainda
podemos pensar o binômio Conservação X Transformação nos perguntando se a Educação deve ser
um veículo de transformação ou conservação da tradição filosófica e da
sociedade fundamentada por ela, ou então, em que medida ela pode transformar
alguns elementos e transformar outros.
Pensadores chaves para esta
exposição:
1) Platão,
Aristóteles, Hugo de São Vítor e Tomás de Aquino para a perspectiva da
Filosofia Antiga e Medieval.
2) Descartes,
Rousseau, Kant e Hegel para a
perspectiva da modernidade
3) Marx,
Dewey, Escola de Frankfurt , Habermas e Deleuze para podermos compreender
melhor as perspectivas em aberto da pós modernidade.
Este texto será mais extenso do
que a aula que será ministrada. Desta forma, ele visará complementar os tópicos
que foram aludidos, com o objetivo de complementar o assunto debatido na sala
de aula.
1)
As
relações entre educação e filosofia na antiguidade e no medievo
Podemos dizer que na Antiguidade
o objetivo principal da educação era o pleno desenvolvimento do homem, em seus
aspectos intelectuais, volitivos, corporais. Acreditava-se que a função
principal da virtude, desde Homero, o grande educador da era clássica, passando
por Heródoto, as escolas sofísticas, assim como em Sócrates, Platão e
Aristóteles, era o desenvolvimento pleno do ser humano a partir da aquisição de
virtudes morais e também intelectuais.
O que conhecemos como Trivium foi
estabelecido pelos sofistas. Ao longo da apropriação do Trivium feita por
Platão, no entanto, a arte retórica foi sendo minada em favor da dialética.
Poderíamos dizer que era um padrão mais elitista de educação, que visava mais a
excelência do que a conformidade. A educação que visava a todos não era o
programa completo, pois era crença padrão de que os homens são distintos por
natureza. Desta maneira a educação tinha por função cumprir com uma determinada
teleologia natural. Era uma educação que buscava o conhecimento da verdade por
si mesmo e a filosofia não tinha a obrigação de satisfazer interesses
utilitários imediatos, pois a sua utilidade como contemplação do Bem Supremo
era tida como uma justificativa por si mesma. A contemplação, ou teoria, acerca
do Bem, Belo e Verdadeiro, era a finalidade última básica e primordial do
homem.
Duas disciplinas eram necessárias
a todo e qualquer homem: a música e a ginástica, e precederiam o estudo das
artes do Trivium, que incorporava Dialética, Retórica e Gramática e do
Quadrivium, que já tinha sido enunciado no sétimo livro da república de Platão,
mas fora sistematizado por Boécio. O Quadrivium englobava o Estudo da
Geometria, que Platão já indicara como essencial ao estudo da Filosofia, e ademais os estudos da Aritmética,
Harmonia e da Música, esta enquanto estudo de padrões de harmonia. A Geometria
e a Astronomia ligavam-se ao estudo dos números ligados ao espaço e a Música e
a Aritmética ligavam-se ao estudo dos números enquanto relacionados ao ritmo,
ou tempo. Dai que a palavra ritmo ligue-se à Música, mas esteja também no
radical da palavra Aritmética.
Os antigos não conceberam os
homens como mentes incorpóreas, mas unidades de corpo e alma –mente, vontade e
afecções. A educação musical e a ginástica treinava os corpos e preparava os
corações dos atletas. O desenvolvimento da virtude no atleta era um elemento
essencial do treinamento da ginástica. A educação musical era uma educação no
espanto, na admiração. Ela formava o coração e a imaginação moral do jovem. A
educação musical não era primariamente ou exclusivamente sobre canto ou
instrumentos. Estudava-se todos os assuntos inspirados pelas Musas (da poesia
épica até a astronomia). A imitação precede a arte, era uma máxima dos antigos.
A educação musical, dirigida para o pleno engajamento da realidade, ofereceu
este fundamento imitativo para o aprendizado das artes e das ciências. A
educação musical e a ginástica ajustava o coração e os corpos à realidade,
formando-os na virtude. Elas educam as paixões, mais do que oferecem
habilidades e conteúdos. (CLARK,
K. & JAIN, R. S. Liberal Arts
Tradition, Classical Academic Press, 2013, Cap. Gymnastic and Music)
Este programa de estudos entra no
Medievo sem sofrer alterações, com a diferença de que para os Medievais a
Piedade, ou melhor a Pietas era um
pressuposto para ser-se instruído em qualquer programa de estudos. Isso já
mostra uma distinção entre a concepção filosófica dos antigos e a concepção
teológica dos medievais. Para os medievais a educação e a filosofia devem visar
ao amor. A Pietas, que era a virtude
máxima da sociabilidade humana para os judeus, mas também para os romanos
(Enéias era chamado de Piedoso por Virgílio), não fora tratada pelos gregos.
Ter a piedade como um pressuposto para se receber a educação era uma garantia
de que o conhecimento não visaria à vaidade humana, ou a vã curiosidade, mas o
amor ao Bem supremo, ou Deus, e aos demais homens. A Pietas era definida como um sentido de referência e temor, que
devia iniciar-se com relação a Deus, visto como criador, passando pelos pais,
que como genitores teriam a primazia deste respeito e referência, depois às
autoridade, até atingir os demais homens, vistos como criaturas semelhantes a
Deus.
“Credo ut intelligam” do Medievo
expressa este espírito. Assim a Teologia, a ciência da Escritura, repousa no
ápice da Educação. “O crescimento na piedade era precedido por muitos anos de
estudo crítico da doutrina que só podia ser dado com grande cuidado intelectual
e sabedoria”. As crenças teológicas e metafísicas atravessaram a cultura, a
Igreja, a universidade e verdadeiramente governaram a forma e o conteúdo do
currículo. Havia uma certeza de que existia uma ordem suprassensível (uma vez
que Platão e Aristóteles mostraram em suas filosofias de que o Ser não poderia
ser reduzido ao sensível), e esta Realidade, passou a ser o cerne da Filosofia
da Educação do grande Educador Medieval, Hugo de São Vítor e também na
perspectiva tomista. A perspectiva educativa e filosófica eram basicamente
centradas nesta crença de que o homem pode, pela via intelectual, chegar ao
conhecimento desta Realidade. Por isso, dizemos que ela era realista (no
sentido de afirmar o realismo do suprassensível) e também intelectualista. (CLARK,
K. & JAIN, R. S, Op. Cit., Piety)
O nome filosofia era entendido,
desde o século IV a.C. até o século XIII, para descrever a unidade do
conhecimento que cobre todos os assuntos. No sistema medieval a filosofia tinha
3 ramos: a filosofia natural, a filosofia moral, a filosofia divina
(metafísica). A filosofia natural era a ciência natural. A filosofia moral era
a moderna ciência social. E a metafísica, o estudo do ser, guarda os segredos
da realidade e divulga sua unidade transcendental. Por estas razões os termos
ciência natural e ciência moral frequentemente são usados como cognatos para a
filosofia natural e moral.
As Ciências Naturais particulares
como a mecânica, a biologia e a alquimia cairiam sob o guarda chuva da
filosofia natural.
As ciências morais particulares
como a ética, a política ou a economia estariam contidas na filosofia moral. (CLARK, K. & JAIN, R. S, Op.
Cit., Liberal Arts: Trivium).
A metafísica ajudava a conectar a
moralidade com o natural assim como o criado ao divino. O Cristo reconcilia o
que vem separado. Estas três filosofias, natural, moral e divina, conteriam
todos os assuntos e disciplinas da universidade. O objetivo da educação é imitar esta estrutura eterna e imutável do
mundo e desconsiderá-lo em seu devir.
2)
As
relações entre filosofia e educação na passagem do medievo para a modernidade e
na modernidade
Os ramos de estudos do Trivium e
do Quadrivium podem explicar, em muitos aspectos, a passagem da era medieval
para a era moderna, a partir de determinados campos de estudo que foram sendo
esquecidos e outros que foram ganhando primazia.
No livro “Trivium” (McLUHAN, M. O Trivium Clássico, São Paulo: É
Realizações, 2012, pag. 31), o autor mostra como a Patrística foi uma escola
que privilegiou a gramática, uma vez que o intuito apologético da patrística
era desenvolver formas de interpretação alegórica, que fossem expressão do
Espiritual contra o conteúdo meramente literal das Escrituras, uma vez que “A
letra mata e o espírito vivifica”. Ora, sabemos que foi justamente este tipo de
interpretação feita por Ambrósio que convenceu Agostinho acerca da viabilidade
do cristianismo como uma possível filosofia, e depois, para ele, como a
verdadeira filosofia.
A partir do século XII esta
primazia vai sendo transferida para a dialética, com o desenvolvimento da
Escolástica, a partir de Anselmo. Segundo McLuhan foi a gramática que permitiu
esta identificação da doutrina do Logos Grego com o Cristo e este
desenvolvimento se deu tanto na patrística latina quanto na bizantina. E isto
se iniciou com Fílon de Alexandria, passando por Agostinho e indo até
Boaventura. A dialética, que passa a ser disciplina privilegiada nos séculos
XII e XIII, sofre um ataque a partir do século XIV com o movimento humanista,
que desejoso de retornar às fontes da Antiguidade Clássica no original ou
hebraico, ou grego, ou latino superestimava os estudos de filologia, tradução e
interpretação, que eram concebidos todos como gramática. Estes conhecimentos
mobilizavam as potências imaginativas e articulavam um conhecimento pela
compreensão dos sentidos de um texto. O ideal educativo dos humanistas visava
um conhecimento do homem que pudesse recuperar a sua dignidade de Imagem e
Semelhança de Deus, e que por isso mostrasse o Homem como obra prima da
Natureza. Daí o ensinamento de Shakespeare de que não nascemos homens, nos
tornamos homens.
Podemos mesmo ver o ideal
educativo de Lutero dentro desta perspectiva. O retorno ao livro Sagrado e o
desprezo pela dialética e pela aristotelização da Teologia tinham como
postulado a primazia da Gramática sobre a Dialética e como corolário a
convicção de que o estudo e leitura da Bíblia por si só eram suficientes para a
educação do homem. Para tanto, Lutero foi dos primeiros pensadores a exigir que
se construíssem escolas que fossem gratuitas para estimular a alfabetização dos
cristãos, a fim de que pudessem ter acesso à Bíblia e não ficassem na
dependência da interpretação oficial da igreja, incompreensível em muitos
aspectos para a maioria. Ainda que Lutero seja uma reafirmação do cristianismo,
com ele temos um rompimento com a Tradição e com isso um novo ideal educativo,
que não esteja comprometido com fantasmas e alegorias do passado, mas com um
novo tipo de homem ao menos emancipado do poder da Igreja.
A verdadeira emancipação do
conhecimento, no entanto, é operada com René Descartes o qual seculariza o
conhecimento científico, separando o conhecimento teológico do conhecimento
filosófico. Esta separação, no entanto, foi operada com o eclipse do método
gramatical dos humanistas, e a eleição da geometria como o paradigma de
conhecimento e a redução da gramática a aspectos meramente normativos de
morfologia e sintaxe. A geometria, ciência cultivada pelos gregos, passa a ser
o paradigma de conhecimento claro e distinto capaz de vencer as dúvidas céticas
que passaram a ser bastante comuns desde o século XIV, quando as primeiras
traduções de Sexto Empírico estavam sendo feitas. Não nos esqueçamos de que
antes de Descartes existiu Montaigne, que foi o maior propagador das ideias
céticas na França. Inclusive o grande filósofo Blaise Pascal, contemporâneo de
Descartes, foi um forte defensor do Pirronismo enquanto postura filosófica e do
catolicismo enquanto postura existencial, uma vez que dada a impossibilidade de
verdade, restava ao homem apenas trabalhar com verossimilhanças ou
probabilidades. A aritmética também foi preconizada, mas como a ela, desde a
Antiguidade estava associada também ao estudo da alquimia e do significado
místico dos números, precisava ser desmitologizada e pensada a partir de um
critério puramente racional, sem qualquer misticismo. Ora, a aritmética era o
que estava na base da concepção trinitária de Deus e apenas um uso não
teológico desta disciplina poderia verdadeiramente emancipá-la. Esta
emancipação foi conseguida graças ao cálculo infinitesimal, ao desenvolvimento
do cálculo de probabilidades e ao desenvolvimento também da geometria projetiva
e analítica.
É importante destacar o seguinte:
o projeto cartesiano logrou o desenvolvimento do mecanicismo que desenvolveu o
conhecimento da filosofia Natural de um jeito nunca visto antes. Acredita-se
que o mecanicismo não deixa de ser consequência direta da influência cristã no
Ocidente, já que pela Teologia Cristã, Deus criou o mundo de maneira boa, ou
seja, há um fundamento racional e inteligível do mundo. Ademais, o cristianismo
também concebia a Natureza como exterioridade e como algo que se deve dominar e
vencer. O grande problema do mecanicismo foi que o conhecimento ficou reduzido
ao que pode ser subsumível matematicamente, considerando todos os outros
conhecimentos possíveis, como imaginativos, ou opiniões meramente subjetivas.
Por traz desta filosofia, há uma antropologia reducionista, que coloca o fim
último do homem não mais no amor ao Bem Supremo, como era com os antigos, ou no
amor a Deus e aos homens, como era na Idade Média, mas como um serviçal de um
conhecimento que pode nem mesmo lhe dizer respeito. Ou seja, a pesquisa que se
faz no laboratório pode não ter absolutamente nada a ver com a nossa própria vida e assim, o homem é
reduzido a um objeto natural dentre outros e incapaz de conhecer a si mesmo, a
não ser enquanto mais uma máquina natural, pensada em analogia às máquinas
hidráulicas. Ademais, a educação fica restrita um processo de conhecimento
entre um sujeito e um objeto externo, ou seja, a educação envolve sempre uma
relação de exterioridade. Como se pensar a liberdade humana assim? Como se
pensar a organização da vida social que não pode ser reduzida a uma mera
disposição natural, uma vez que os homens não parecem se reduzir a seres
meramente naturais e excedem em organização, maestria, mas também dor e
sofrimento os demais seres naturais?
Sabemos que a filosofia moderna é
uma opção em muitos aspectos nominalista ao realismo do Medievo e da Antiguidade.
Guilherme de Ockam foi o grande pai da Filosofia Moderna. Isso significou uma
consideração da concepção de Deus e do homem mais centrada em aspectos
volitivos do que intelectuais. Na filosofia tomista tanto Deus quanto o homem
seguem seu intelecto. A vontade segue o intelecto quando o homem está sob a
Graça. Portanto, seguindo esta tradição, Deus não pode não procurar fazer o que
sabe ser o bem. A liberdade não está em poder fazer o mal, mas em podendo fazer
o mal não fazê-lo.
A modernidade nas metafísicas de
Descartes, Espinosa e Malebranche pensou Deus enquanto vontade livre. Ou seja,
Deus age de acordo com seu beneplácito. Assim, aquilo que consideramos como
verdade foi estabelecido pelo arbítrio de Deus. Leibniz, para retornar à
tradição tomista, quis mostrar que esta escolha não era arbitrária, mas possuía
um fundo moral.
A pedagogia que vemos se
desenvolver no grande filósofo da educação da Idade moderna, Rousseau, será
justamente uma pedagogia da vontade visando a autonomia. A finalidade máxima da
filosofia, segundo Rousseau, não é um conhecimento da Natureza enquanto
exterioridade. Mas um conhecimento do homem enquanto ser natural e visando a
autonomia. Ou seja, a educação é antes uma educação da vontade.
“Eis as questões que a pedagogia
do Emílio buscou desenvolver:
1) Quais
as virtudes devem ser cultivadas para a cidadania democrática
2) O
que deve promover ou capacitar a autonomia individual
3) O
que deve ser tolerado e respeitado da diversidade cultural e como a educação
não homogeneizará a população procurando criar uma cultura política nacional.
a) A
educação democrática estabelece a escolarização obrigatória e simultânea a
todas as crianças
b) Garante
a todas as crianças o mesmo currículo e experiências similares
c) Dá
provimento às crianças com fontes educacionais de igual valor” (CURREN, R. ed. A Companion to the Philosophy of Education,
Melbourne, 2003, pag. 95)
A grande questão de Rousseau é
educar o homem para que antes do amor próprio ele busque o bem geral. Assim,
antes que o homem procure a satisfação de seus impulsos egoístas, ele procure
amar a polis, tendo como exemplo a mãe espartana. A educação então teria de
transformar os homens e permitir que o estudante, após a experiência educativa,
pudesse dizer: “Resolvi ser o que fizeram de mim”.
Rousseau não estava interessado
na liberdade, mas no caráter moral e legítimo da vontade humana. Para Rousseau,
apenas a educação é capaz de produzir um estado de perfectibilidade humana. Por
meio dela, deve-se “desnaturar” o particularismo das pessoas, preservando, no
entanto, a autonomia. O voluntarismo
deve ser bem orientado para a vida pública.
Em Rousseau a “vontade geral” não
é natural: ela é artificialmente produzida , e apenas um ser divino pode ter
uma vontade geral. A educação deve buscar converter este particularismo da
vontade em algo geral e isto de modo não autoritário, ou seja, não visando a
mera obediência e sim uma escolha autônoma. A questão é então: como a
autoridade não será autoritária e irá compelir sem violentar.
Se uma pessoa fosse capaz de
sempre sacrificar o amor próprio quando ele estivesse em desacordo com a lei, a
cidadania e o bem comum, ela teria desenvolvido a vontade geral no sentido
rousseauniano. A vontade garante a liberdade, a autodeterminação e uma
causalidade moral; a generalidade garante que as ações não são nem egoístas nem
auto-obsessivas. Assim, vontade geral é um termo chave. Ser adulto é ter adquirido esta vontade geral.
Assim, a maioria dos homens não passam de crianças.
Kant segue Rousseau quanto à
busca de conhecimento a partir de um processo de autonomia. No entanto,
diferentemente de Rousseau, Kant não define o homem como um ser meramente
natural. O homem, enquanto fenômeno é um ser natural dentre outros. Mas
enquanto númeno ele é uma coisa em si, irredutível de ser pensada apenas no
plano de causalidade natural. Aliás, é porque o homem é capaz de introduzir uma
nova causação na Natureza que jamais poderemos reduzi-lo a um mero fenômeno. A
autonomia do homem, fim último do processo educativo, não está no Reino da Natureza,
mas no Reino da Moralidade.
A grande reviravolta na
perspectiva moderna, a qual, inclusive não conseguira libertar-se de certo
realismo metafísico, dá-se com a revolução copernicana operada com Kant, a
qual, trará consequências de longo prazo para todas as concepções
educativas. Com Kant o sujeito constitui o objeto a partir de estruturas
prévias a priori que regulam tanto a intuição sensível quanto o entendimento.
O EU cartesiano era uma estrutura
prévia garantidora da possibilidade de certeza, mas esta estrutura meramente
lógica poderia ser reduzida a um EU empírico? Se sim, então que garantia
teríamos que a certeza do cogito ao invés de ser lógica não era meramente
psicológica? Esta dúvida que Hume lança permitiu que Kant acordasse do que ele
chamou de “sonho dogmático”. O sujeito pensado por Kant é uma subjetividade
constituída a priori e para pensarmos a educação, diríamos que o sujeito do
conhecimento constitui o seu objeto de conhecimento uma vez que o força, o
investiga, o faz responder às questões prévias elaboradas pelo sujeito
investigador.
Esta descoberta do “sujeito
constitutivo” permitiu a Hegel pensar a História como sendo constituída por
sujeitos históricos: a História não se reduz a uma história natural, mas seria
o Reino do Humano. A História seria justamente o caminho a partir do qual a
Razão se realizaria, assim como a Liberdade enquanto um processo
necessariamente histórico. A educação precisaria visar a emancipação do homem
enquanto um processo histórico. Com Hegel passa-se a compreender como toda
etapa da história da Filosofia é uma etapa do desenvolvimento do Espírito cujo
clímax, segundo Hegel, foi atingido com a Revolução Francesa. Neste momento a
Liberdade teria se realizado e a História teria se concluído, ou haveria identidade
entre o Sujeito e o Objeto. O objetivo
da educação é constatar o devir do mundo e agir neste mundo de forma autônoma.
3) As relações
entre Educação e Filosofia na era contemporânea
Podemos dizer que a grande lição
de Kant de que o mundo é constituído por sujeitos e não meramente habitado por
eles foi aprendida por Marx. E que o mundo humano é constituído por sujeitos
históricos, que a história é o processo de realização da Razão, foi a lição
aprendida de Hegel.
Se o mundo não é dado, ele pode ser
modificado. Mas se o que constitui o mundo são sujeitos históricos, então ele
deverá ser modificado, transformado por um processo histórico. Marx acreditou
que esta transformação seria obtida a partir da luta por reconhecimento da
classe operária. Ou seja, a classe operária seria a grande mobilizadora da
transformação histórica.
Ainda que Marx não tenha nenhum
escrito preciso sobre a educação, podemos dizer que após ele, tanto a Filosofia
quanto a educação ficaram sob a obrigatoriedade ou de seguir ou de contestar a
11º. Tese contra Feuerbach, que afirma que os filósofos até então haviam apenas
pensado o Mundo e que a urgência agora seria de transformá-lo. É difícil não
considerarmos que esta afirmação causou um grande impacto tanto na Filosofia
quanto na Educação até hoje. (CURREN,
R. ed. A Companion to the Philosophy of
Education, Melbourne, 2003, pag. 165).
Se pudéssemos imaginar um modelo
de educação pensado por Marx, seria algo que propusesse um esquema alternativo
às formas de reprodução capitalista e meios de educação do proletariado. Marx
via a educação como um meio de reprodução das sociedades burguesas e seus
valores. Mudar as formas sociais possibilitaria uma nova educação: então, desta
maneira, a educação teria de ser precedida por esta mudança social para que
pudesse se efetivar não apenas como um modelo alternativo sem força para
competir com o hegemônico. Modos alternativos de educação visariam a proposta
de novas formas de organização social. A educação inspirada no marxismo seria
uma educação não alienada, uma vez que educaria justamente para a consciência
de si enquanto agente histórico. Numa sociedade comunista, de acordo com Marx,
o sistema de automoção poderia realizar o trabalho servil e os homens poderiam
desenvolver trabalhos criativos e experimentais, sendo a educação um processo
presente ao longo da vida.
As gerações que sucederam Marx
procuraram tratar a questão da consciência individual e da intersubjetividade
no desenvolvimento da comunicação, da ação simbólica e da cultura. Marx não
havia considerado a comunicação como importante meio de desenvolvimento de
novas formas de associação e solidariedade. Ele colocaria muita ênfase na luta
de classes e uma vez que a classe proletária não realizou esta destinação
histórica que se esperava dela, seria necessário repensar dialeticamente as
estratégias de luta contra a ordem capitalista.
Marx nunca considerou a
importância das instituições da democracia liberal como uma importante herança
das sociedades modernas que deveriam ser absorvidas a processo de socialização.
Assim poder-se-ia pensar em uma filosofia da educação que fosse capaz de
auxiliar os estudantes em sua auto compreensão histórica enquanto sujeitos históricos,
usando-se as instituições da sociedade liberal burguesa.
Habermas será um pensador da
intersubjetividade que buscará pensar uma teoria social e o processo de
comunicação como meio para a emancipação. Segundo Habermas, a teoria marxista
que procurou ser uma teoria científica, ficou muito restrita a uma perspectiva
positivista e foi incapaz de pensar alternativas ao modelo liberal que não pela
luta de classes empreendida entre as duas principais classes que sustentam o
modelo capitalista: a burguesia e o proletariado.
Contra um projeto metafísico que
procuraria centrar o conhecimento a partir da metafísica do sujeito, o que
acarretava problemas ligados ao internalismo, mentalismo, Habermas quer pensar
uma filosofia que possa justificar os seus pressupostos. O pressuposto da
teoria habermasiana seria a comunicação, já que até mesmo o cético para
argumentar contra a possibilidade da verdade, seria obrigado a se servir da
comunicação para tal. Ademais, a comunicação seria um processo auto-reflexivo
já que ela sempre poderia questionar e repensar seus pressupostos.
O paradigma da intersubjetividade
marca uma nova concepção de educação, uma vez que coloca o conhecimento como
resultado de processos comunicativos e não como algo que habita o céu dos
conceitos e pelo qual teremos acesso ou não, dependendo da eficácia do
professor. Ademais, coloca o professor como alguém como os estudantes, não como
o detentor do saber, mas como uma pessoa que possui uma carga de estudo e
reflexões sobre um determinado tema superior aos alunos, mas não infalível. Uma
comunidade educativa inspirada num modelo intersubjetivo é uma comunidade de
aprendentes, e o professor é um deles.
Nunca é demais considerar a
importância do pragmatismo para o desenvolvimento da noção de
intersubjetividade. Não havendo um conhecimento que seja superior ou mais
válido do que outro e sendo o conhecimento resultado de um processo
comunicativo, a partir do pragmatismo veremos que a experiência democrática é
superior à obtenção dos conhecimentos. Como ensinaria Rorty, há mais vantagens
na democracia do que na filosofia. Não aprendemos a solidariedade a partir da
filosofia, mas da experiência democrática. Uma filosofia edificante seria
aquela que estaria em aberto justamente porque a democracia é uma experiência
que sempre se reinventa, jamais se reifica.
A destruição do modelo metafísico,
que tanto fundou a metafísica realista da Antiguidade e da Idade Média, quanto
do modelo da metafísica do sujeito que gerou todos os problemas da relação
entre corpo e mente, talvez tenha logrado êxito com o desenvolvimento do
pragmatismo, uma vez que a prioridade dada pelo pragmatismo envolve não o
significado atrelado a um conceito ad eternum, mas a um uso sócio prático. Uma
pedagogia centrada no pragmatismo tenderia a dar maior significação àquilo que
tem sentido e tem o interesse dos estudantes. E não podemos falar em
intersubjetividade e pragmatismo em educação sem nos centrarmos na figura de
Dewey, que, inclusive influenciou todos os pragmatistas que lhe seguiram, como
Rorty e Habermas, que citei.
Dewey argumentou que o problema
do conhecimento é melhor conhecido como o problema de determinar porque certas
ideias funcionam melhor do que outras em determinadas atividades e objetivos. A teoria da ideia como
representação, advinda de Descartes, gerava um problema insolúvel. No entanto,
se reconhecermos que o que realmente importa para nós é como as ideias
funcionam como ferramentas, que modelam, predicam, interpretam nossa
experiência, o problema deixa de ser insolúvel. (CURREN, R. Op. Cit, pag. 97)
Dewey pensou, como Hegel, que a
liberdade não era um fato natural, mas social. Não somos seres meramente
cognitivos: somos seres com uma carga emocional, social e cultural, eventos
psicofísicos atrelados a um processo histórico. A escola não pode ser vista
como algo que colocamos em um vaso, sendo os estudantes os vasos.
Na visão de Dewey o conhecimento
é basicamente resolver problemas, encarar desafios numa perspectiva de
colaboração e integração. Para Dewey apenas a democracia é capaz de permitir
que o homem cresça em dignidade indefinidamente. Não sabemos se o que as
crianças aprenderam na escola irão lhe servir no futuro: então, o mais
importante é que ganhem autonomia e possam saber se adaptar. O processo
educacional é uma reformulação e reconstrução da experiência, e seu valor não
está limitado a um uso instrumental.
Outra proposta que julgo, por
fim, muito digna de nota com relação aos possíveis caminhos entre filosofia e
educação, é a proposta de Deleuze. Deleuze não fora um pensador da educação,
mas é bastante estudado por filósofos da educação. Deleuze considerou a
atividade filosófica como criação de conceitos. Esta criação teria como
finalidade não castrar o intelecto, mas fazer proliferar experiências de
pensamento, de modo a sempre afirmar-se como experiência do múltiplo e não do
uno.
Não se trata aqui de uma leitura
idealista do conceito, no sentido que ele é uma afirmação da ideia. Não é fruto
de uma atividade contemplativa, como na filosofia antiga e medieval, porque a
contemplação desvela, nunca cria. Ela não é comunicação, como pensava Rorty e Habermas,
porque seu objetivo não é visar o consenso. E ela não é uma atividade de
reflexão, como pensava Dewey, porque refletir é um ato que qualquer um é capaz
e não é uma especificidade do filósofo.
A criação de conceitos pensada
por Deluze visa o acontecimento, que é sempre singular. Então nunca é expressão
do universal. Ele é criado a partir de um plano de imanência, que consegue
detectar problemas antigos, ou problemas mal colocados, ou mesmo problemas que
precisariam ser inventados. Contra a ideia de um fundamento único e universal
do conhecimento, Deleuze pensa que o conceito é uma heterogênese, uma ordenação
por pontos de vizinhança, remetendo-se sempre a novos conceitos e firmando com
eles novos devires e novas conexões. Por conta disso o conhecimento não pode
seguir a estrutura da árvore do conhecimento, tão cara à História da Filosofia,
a qual se remete a um fundamento único que poderá dar origem a diferentes
ramos. A estrutura é rizomática, espalha-se num plano de horizontalidade, já
que o rizoma é um caule horizontal. Este espalhamento é caótico, não
estrutural, não hierárquico, não centrado, não linear, em contraste com todas
as formas de hierarquia que ainda estão vigentes nos modernos processos de se
pensar o currículo e a prática educativa. (GALLO, S. Deleuze e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. Pags. 40 a
42). O objetivo da educação aqui é a
auto-experimentação, a auto-criação, assim como a reinvenção de si, do mundo e
das relações interpessoais, visando o encontro, articulando processos e
buscando a transformação, quiçá, do mundo.
Bibliografia:
CLARK, K. & JAIN, R. S. Liberal Arts Tradition, Classical
Academic Press, 2013.
CURREN, R. ed. A Companion to the Philosophy of Education, Melbourne, 2003.
GALLO, S. Deleuze e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
McLUHAN, M. O Trivium Clássico, São Paulo: É Realizações, 2012.
Trivium
Trivium à
Filosofia Moral
Quadrivium à
Filosofia Natural
A coisa mais importante que torna a sociedade boa, justa e
sábia é a educação.
Escola que pratica os seus princípios.
Educação completa pelas artes liberais. Educação integral.
A educação pelas artes liberais pode ter como inventores
grandes mentes da História, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Cristo,
Agostinho, Pascal, C.S.Lewis.
É uma educação não para estabelecer um padrão mínimo de
compreensão, que acaba acarretando a homogeneização das mentes. Reavivamento
espiritual como forma de combater a decadência cultural do ocidente.
Objeções possíveis:
2) É autoritário, velho, tradicionalista, fundamentado numa visão metafísica de mundo.
3) Não está em linha com as filosofias modernas: o ceticismo, o subjetivismo, o pragmatismo, o neopragmatismo, o pós modernismo, o neopositivismo, o neo estruturalismo, etc. E isso se deve ao fato dele remar contra a maré, sendo praticamente um movimento de contracultura.
4) Outra objeção é que ele crer existir proposições que sejam verdadeiras e outras que sejam falsas para além de qualquer objeção cética.
5) É um programa que só consegue ser implantado com pequenos grupos, com pequenas escolas, justamente porque ele vai na contramão de uma cultura de massas.
6) Busca a VERDADE POR SI MESMA E NÃO POR SEU USO PRÁTICO. Como ensina Chesterton, A necessidade prática da maioria dos homens é ser muito mais do que um pragmatista.
7) Não é uma educação para o mercado, ou para você vencer neste mundo. Ensina-lhe como pensar e como viver, ensinando-lhes a como ler e escrever logicamente e criativamente.
8) É religiosa e cristã. Não é necessário que se seja cristão para se ter bom benefício desta educação, é necessário crer que existe o sobrenatural e que o homem não se resume ao natural. A graça aperfeiçoa a natureza.
As sete artes liberais são parte da riqueza que nós herdamos
do mundo antigo. Os antigos acreditavam que estas sete artes não eram apenas
assuntos para se tornarem mestres, mas caminhos certos e seguros de formar na
alma a virtude intelectual necessária para adquirir a verdadeira sabedoria.
Dorothy Sayers e Doug Wilson falam de ferramentas perdidas. A crise da educação
atual, segundo estes autores, é de aprendizado.
As artes do Trivium trabalham com a linguagem. As artes do
Quadrivium trabalham com as matemáticas. Alguns autores, como Sayers e Wilson
vem o Trivium apenas como um projeto de formação moral. Outros veem que esta
formação é dada no Conjunto entre o Trivium e o Quadrivium (Littlejohn e
Evans).
Como o ser humano é muito mais do que intelecto, as 7 artes
precisam desenvolver mais do que apenas virtudes intelectuais. Criaturas
sobrenaturais devem ser educadas no corpo, alma, mente, vontade e afecções. A
tradição educacional clássica incorpora apenas um tipo de currículo integrado
através do entendimento das demandas naturais. O alvo desta educação plena e a
educação integrada dos seres humanos, cujos corpos, corações, e mentes são
formadas respectivamente pela ginástica, música e as artes liberais; cuja
relação com Deus, vizinho e a comunidade são marcados pela piedade; cujo
conhecimento do mundo, do homem e de Deus se encaixam harmoniosamente com uma
filosofia distintamente cristã; e cujas vidas são informadas e governadas por
uma teologia forjada da Revelação de Deus em Jesus Cristo e sido transmitida na
Cristandade Histórica. Estas ferramentas
forjam não apenas o aprimoramento intelectual, como também a imaginação moral
capaz de engendrar a piedade.
Fundamentada na piedade, a educação clássica cristã cultiva
a virtude do estudante no corpo, coração e mente, enquanto nutre um amor pela
sabedoria sob a veneração do Cristo.
Fundamentada na piedade e governada pela
teologia
Os antigos acreditavam que a educação era fundamentalmente
sobre engendrar o amor. Toda educação é ano amor. A piedade é o amor a Deus,
sumo Bem, e ao próximo. A piedade requeria uma fé devota manifesta na ação. A
educação era a enculturação na piedade, virtude, sabedoria e graça, e o
currículo servia à cultura.
“Credo ut intelligam” de Anselmo expressa este espírito.
Assim a Teologia, a ciência da Escritura, repousa no ápice da educação. O
crescimento na piedade foi o fundamento
e foi precedido por muitos anos de estudo crítico da doutrina que só podia ser
dado com grande cuidado intelectual e sabedoria. As crenças teológicas e
metafísicas atravessaram a cultura, a Igreja, a universidade e verdadeiramente
governaram a forma e o conteúdo do currículo como as faculdades das
universidades devem entender os sentidos de Deus no mundo. A Teologia era a
rainha das ciências, mas uma rainha servil. A graça não confronta com a
natureza, mas a aperfeiçoa. O currículo era fundamentado na piedade e governado
pela teologia.
Ginástica e Música: o treinamento dos corpos e a conversão
do coração
Os antigos não conceberam os homens como mentes incorpóreas,
mas unidades de corpo e alma –mente, vontade e afecções. A educação musical e a
ginástica treinava os corpos e preparava os corações dos jovens para a etapa
posterior no desenvolvimento da piedade. O desenvolvimento da virtude no atleta
era um elemento essencial do treinamento da ginástica. A educação musical era
uma educação no espanto, na admiração. Ela formava o coração e a imaginação
moral do jovem. A educação musical não era primariamente ou exclusivamente
sobre canto ou instrumentos. Estudava-se todos os assuntos inspirados pelas
Musas (da poesia épica até a astronomia). A imitação precede a arte, era uma
máxima dos antigos. A educação musical, dirigida para o pleno engajamento da
realidade, ofereceu este fundamento imitativo para o aprendizado das artes e
das ciências. A educação musical e a ginástica ajustava o coração e os corpos à
realidade, formando-os na virtude. Elas educam as paixões, mais do que oferecem
habilidades e conteúdos.
As artes liberais são
as ferramentas de aprendizado, tanto
linguístico quanto matemático
O crescimento exponencial da informação hoje supera o
estudante. As artes liberais, por outro lado, oferecem um cânon particular de
sete estudos que garantem as ferramentas essenciais para todo o aprendizado
subsequente. Os assuntos das artes liberais não eram apenas linguísticos, mas
incluíam também as ciências matemáticas e as matemáticas. Matemática é uma
disciplina central da educação tradicional ocidental e sua inclusão no
currículo se deve ao papel que ela desempenhou na academia platônica. O papel
do latim para as artes da linguagem também desempenha um papel mais
significativo do que já foi expresso. Ele treina o estudante não apenas no que
pensar, mas em como pensar.
As artes liberais peneiram da infinidade de artes e ciências
um cenário canônico de sete artes liberais cruciais que fornecem as ferramentas
de aprendizado necessárias nos três ramos da filosofia ou da Ciência. Pode-se
perguntar, quais artes? De acordo com Aristóteles, ciência é um corpo de
conhecimento justificado pela razão que pode estar apenas na mente. Arte, por
outro lado, é uma imitação unida à razão, ou uma ciência unida à prática. Uma
arte é, de fato, uma ferramenta. O que são, então, as artes liberais? As artes
liberais são sete ferramentas usadas para criar e justificar a ciência. As do
trivium são ferramentas da linguagem. As do quadrivium são ferramentas da
matemática.
As artes liberais, unidas à piedade, ginástica e música não
são suficientes para a educação toda. As artes liberais são ferramentas apenas
pretendidas de aprendizado para serem usadas em todos os outros estudos. Os
três ramos da filosofia e, em adição, da teologia, contém uma tapeçaria
integrada de todos os outros conhecimentos como representados pelas inúmeras
ciências particulares, como a biologia, a ética, a economia e a química.
O estudo das artes liberais não serve para substituir o
estudo legítimo de outras artes e ciências. Ao contrário, o caminho é tornar a
aquisição de todos os estudos posteriores mais simples e efetivo.
A filosofia é o amor
da sabedoria na realidade natural, divina e moral
O nome filosofia será entendido aqui em seu sentido clássico,
desde o século IV a.C. até o século XIII para descrever a unidade do
conhecimento que cobre todos os assuntos. No sistema medieval a filosofia tinha
3 ramos: a filosofia natural, a filosofia moral, a filosofia divina
(metafísica). A filosofia natural é a ciência natural. A filosofia moral é a
moderna ciência social. E a metafísica, o estudo do ser, guarda os segredos da
realidade e divulga sua unidade transcendental. Por estas razões os termos
ciência natural e ciência moral frequentemente são usados como cognatos para a
filosofia natural e moral.
As Ciências Naturais particulares como a mecânica, a
biologia e a alquimia cairiam sob o guarda chuva da filosofia natural.
As ciências morais particulares como a ética, a política ou
a economia estariam contidas na filosofia moral. O termo ciência significa um
conhecimento demonstrável de causas. Para Aristóteles houve quatro causas que
eram para ser estudadas em ciência: material, formal, eficiente e final. A
ciência contemporânea tem desprezado as causas formais e finais, e reduzido
tudo à causa eficiente e material.
Os antigos acreditavam que a arte imita a natureza e
consequentemente os medievais frequentemente estudaram a filosofia natural como
uma preparação para a filosofia moral. A metafísica ajudava a conectar a
moralidade com o natural assim como o criado ao divino. O Cristo reconcilia o
que vem separado. Estas três filosofias, natural, moral e divina, conteriam
todos os assuntos e disciplinas da universidade contemporânea.
Piedade:
Piedade é uma palavra perdida em nosso vocabulário
contemporânea. Ela não possui o mesmo apelo contemporâneo que “transparência”,
“transformação radical”, “transformação social”. Mas talvez piedade seja a
palavra que precisemos hoje. A piedade significa o dever, o amor, e o respeito
devidos a Deus, aos pais, aos semelhantes, às autoridades comunitárias do
passado e do presente.
No livro, “As ideias têm consequências” Richard Weaver
afirma que a perda do elemento crítico em nossa cultura tem sido a doença mais
fundamental de nossa sociedade contemporânea. Ele mostra o homem moderno como
ímpio. A litania das revoluções mostram a evidência disso. Mostra também como a
modernidade é sempre agitada, incapaz de serenidade.
A piedade era a virtude central da Roma de César Augusto.
Tanto assim que Virgílio descrevia Enéias como pio. A modernidade se mostra
como rejeição do passado, com o próximo e com a natureza.
O códice do Deuteronômio do antigo Israel exigiu respeito
aos pais, à tradição e aos antigos. A piedade formou o fundamento crucial da
antiga sociedade hebraica. A cultura clássica greco romana exigia respeito
pelas autoridades e pelo divino. Sócrates é condenado à morte por ser acusado
de impiedade. A piedade enforma o nosso ser e identifica quem somos.
A piedade era a virtude mais cultivada entre os romanos e os
hebreus do que entre os gregos. E será uma virtude fundamental na tradição
cristã. Cicero definiu a piedade como a virtude que “admoesta-nos a cumprir com
nosso dever para com nosso país, nossos pais e os que estão ligados a nós pelos
laços de sangue”. Nas Instituições, Calvino define a verdadeira piedade como
“aquela referência que nos une a Deus e nos faz buscar um conhecimento que
beneficie aos demais”. Thomas de Aquino escreve como a piedade dirige-nos ao
mesmo tempo para Deus e os outros, “pela virtude da piedade o homem devota o
dever e a veneração não apenas aos seus pais na carne, mas também a tudo o que
se relaciona ao seu pai, e pelo dom da piedade ele devota dever e veneração não
apenas a Deus, mas a todos os homens na sua relação com Deus”.
Piedade pode ser mais simplesmente estabelecida como o amor
próprio e o temor a Deus e ao homem. Neste sentido, é pedida por Cristo como o
mandamento máximo. A piedade é intimamente unida à palavra amor, ainda que ela
inclua as noções de temor reverente, dever e ação. Gregório Thaumaturgus
identifica a piedade como “a mãe de todas as virtudes”. Para Agostinho, a
virtude é a ordo amoris. O amor de Deus deve sempre tomar precedência sobre
outros amores.
Este ordenamento próprio não pode ser feito à parte da graça
de Deus, devido ao pecado original. Talvez seja por isso que Aquino distinga o dom da piedade da virtude da piedade. A graça
de Deus oferecida em Cristo pode formar o fundamento suficiente para a
verdadeira graça aos outros. O trabalho da escola depende da formação cristã
recebida na igreja e na família, mas a escola deve desenvolver e apoiar este
fundamento. Para os antigos, a ordem própria do amor era o edifício crucial de
toda a educação moral e intelectual.
Enquanto a ordem própria do amor de Deus e as pessoas é a
formação crucial e moral, a piedade é também um pré requisito essencial para o
verdadeiro entendimento, uma lição ensinada por Cristo e reiterada pelos pais
da Igreja. Agostinho aponta que a piedade é uma das seis etapas para a
sabedoria. A cultura cristã e clássica reconhece que a virtude e a piedade
desempenham um papel nesta perseguição da sabedoria.
Todas estas decisões estão enraizadas no comprometimento da
piedade. Assim a piedade é um fundamento crítico para o empreendimento educacional.
Enquanto a escola hoje é vista ou como um treinamento vocacional ou pior, uma
oportunidade para os estudante “descobrirem a eles mesmos” por uma perspectiva
a histórica, amoral. A educação no Ocidente desde os Antigos Gregos centrou-se na
enculturação. Como uma geração pode passar sua cultura para a próxima geração?
Sem o comprometimento com a tradição a educação pode desaparecer. Um projeto
educacional que procure educar a partir da neutralidade de valores é
insustentável, porque não desenvolve um senso de dever, de obrigação, de
comprometimento.
Sem estudantes que internalizem um respeito e reverência ao
Sumo Bem, sem heróis, que não admirem ninguém, dificilmente respeitarão os
pais, professores e mais velhos. Aprender é estar aberto a submeter-se a algo.
Uma criança em um estado de rebelião ativa ou passiva nunca será enculturada em
um sentido consoante à tradição.
Ginástica e Música
A ginástica e a música devem iniciar os primeiros anos de
estudo.
O treinamento deve ser cuidadoso e deve continuar ao longo
da vida.
Os grandes professores do passado tinham diferentes
concepções da natureza e do conteúdo do currículo escolar.
Este é especialmente o caso com respeito ao que chamamos de
educação elementar. Na República vemos como estas duas disciplinas desempenham
um importante papel nos primeiros anos formativos da educação.
A educação clássica procura preferencialmente construir sob
uma educação moral e poética que mova para a análise ou para a crítica.
Ginástica é o condicionamento físico da criança. Culmina na
corrida, natação, luta livre, etc, incluindo os rudimentos de controle sobre o
corpo. A música é similarmente ampla e trata do que os antigos acreditaram ser
inspirada pelas Musas. Este aspecto da educação inclui o que chamamos de
música, mas também poesia, drama, artes e literatura. Na antiguidade clássica
uma porção da educação das crianças consistia no treinamento físico, no canto,
na memorização da poesia, no agir e imitar, no desenho, na escultura, no
aprendizado de ditos de grandes homens do passado, na leitura de grandes obras
da literatura, na experiência e observação do mundo natural. Isto deve nos
fazer considerar a educação clássica.
Mas porque os antigos gastavam tanto tempo nestas duas áreas?
A resposta, acreditamos, é simples e profunda nas implicações da educação
cristã: o treinamento físico disciplinado da ginástica e o treinamento
emocional da música são fundamentos para a aquisição de virtudes tanto morais
quanto intelectuais. Estas duas disciplinas ajudam na educação da pessoa por
inteira.
Ginástica:
treinamento do corpo para o bem da alma
Na escola atual a
educação física não é vista do mesmo modo como era nas escolas clássicas
cristãs. Nossa meta aqui é discutir a importância da educação física e da
atlética para um currículo clássico cristão, reconhecendo-os como elementos centrais
do paradigma de ensino que está sendo defendido neste ensaio.
A educação não é apenas uma questão intelectual porque o ser
humano não é apenas mente. Um currículo pleno deve cultivar o bem da pessoa
inteira, de corpo e alma. O treinamento pela ginástica é um elemento essencial
do currículo. A falha em se reconhecer isto não é apenas uma falha educacional,
é uma falha antropológica.
O que é a educação pela ginástica? A educação é o
aperfeiçoamento de habilidades humanas.
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