Anotações e Citações do livro “O inconsciente espiritual” de
Jean-Claude Larchet (LARCHET, J. C. O
inconsciente espiritual. São
Paulo, Loyola, 2009).
“As doenças psíquicas não se identificam com as doenças
espirituais: trata-se de doenças de natureza diferente, e convém manter a distinção
entre elas.” (pag. 14)
“As doenças espirituais possuem uma origem sui generis.
Algumas doenças físicas ou algumas doenças psíquicas certamente podem oferecer,
às vezes, um terreno favorável a seu desenvolvimento, mas não podem ser sua
causa.” (pag. 15)
“Devemos cuidar de não subavaliar (e, a fortiori, de negar)
a etiologia corporal (biológica ou fisiológica) das doenças psíquicas, como
algumas psicoterapias são tentadas a fazê-lo. Algumas doenças psíquicas podem
ter uma etiologia puramente somática, mesmo se elas fazem intervir, quanto às
suas formas de expressão, fatores psíquicos e até mesmo espirituais. Por outro
lado, algumas dimensões da doença podem ser corporais, enquanto outras são
psíquicas e espirituais”. (pa. 16)
“Como mostramos no capítulo que lembra os grandes princípios
da antropologia cristã, esta concebe a relação com Deus como aquela que define
o ser humano em sua natureza e em sua existência pessoal. Considera por isso
que as diferentes faculdades humanas são naturalmente orientadas para Deus e
que seu exercício é contra a natureza e anormal quando a pessoa o realiza em
outro sentido. Por este exercício contra a natureza das faculdades humanas
formam-se as paixões, as quais constituem doenças espirituais que devem ser
propriamente distinguidas das doenças psíquicas: assim como as paixões não são
doenças psíquicas, tampouco as doenças psíquicas são paixões”. (pag. 17)
“A desarmonia introduzida pelas paixões no exercício de
nossas faculdades é uma desarmonia não somente espiritual, mas psíquica. Isto
significa que toda doença espiritual gera uma perturbação psíquica
correspondente ”. (pag. 18)
“As doenças espirituais correspondem a paixões que os Padres
qualificam de ‘culpáveis’. Afirmar que as doenças espirituais desempenham um
certo papel no nascimento, no desenvolvimento ou na subsistência de algumas
doenças psíquicas não significa, no entanto que aqueles que são atingidos por
doenças psíquicas sejam mais culpados ou mais pecadores do que os outros.”
(pag. 19)
“O ser humano decaído é necessariamente habitado pelas
paixões, se bem que elas se encontram em proporções diferentes nos diferentes
indivíduos. Como acabamos de ver, podemos dizer que cada pessoa desenvolve uma
patologia psíquica relativa à sua patologia espiritual. Mas na maioria dos
seres humanos essa patologia psíquica é equilibrada, de modo que não se
manifesta na forma de perturbações perceptíveis ou de doenças identificáveis”.
(pag. 19)
“Mesmo quando reconhecemos que algumas doenças psíquicas
dependem de uma terapêutica espiritual na medida em que elas dependem de causas
espirituais, não se trata para nós de afastar as terapêuticas espirituais para
fazer terapêuticas psíquicas (...). A natureza e a finalidade das terapêuticas espirituais
devem ser absolutamente respeitadas, tanto mais que nelas intervêm como fonte
de cura a graça e seu vetor, os sacramentos, o que significa que elas são
indissociáveis do domínio sobrenatural e do domínio de vida eclesial. Os dois
domínios saem dos limites de uma terapêutica ‘profana’ e excluem uma
instrumentalização em proveito de fins exteriores e inferiores”. (pag. 20)
“o ser humano é destinado por natureza a se tornar deus por
graça” (pag. 23)
“Assim, a inteligência em sua forma intuitiva (nous) e em
sua forma racional (logos) é feita para conhecer Deus; a faculdade desejante
(epithumia, epithumetikon) é feita para desejar Deus e amá-Lo; o poder
irascível ou ardor (thumos) é feito para combater o mal, afastar as tentações e
lançar mão do zelo de que necessita a vida espiritual; a vontade é feita para
se conformar com a vontade de Deus e realizar seus preceitos; a memória é feita
para se lembrar de Deus; os sentidos e a imaginação são feitos para servir de
base à contemplação...” (23 e 24)
“Por um desvio e uma perversão de suas faculdades de
conhecimento, o ser humano substitui o conhecimento de Deus e a contemplação
das criaturas em Deus pelo conhecimento das criaturas fora de Deus e somente em
suas aparências sensíveis. Por um desvio de sua faculdade desejante e de seus
sentimentos, o ser humano, em vez de desejar e de amar a Deus, pôs-se a amar a
si mesmo, fora de Deus, por uma atitude apaixonada que os Padres chamam de
Filáucia e amar as criaturas pelo prazer sensível que elas lhe davam neste amor
egoísta a si mesmo.” (pag. 25)
“Em suma, todas as faculdades da natureza humana foram assim
desviadas de seu uso original, moral e sadio para um uso perverso, contra a
natureza (para phusin), insensato (para logon), anormal e doentio. Assim, toda
a natureza do ser humano pôs-se a existir e a funcionar fora de si mesma, em um
estado não somente de alteração, mas de alienação” (pag. 26)
Doenças espirituais:
Gastrimargia (gula)
Porneia (luxúria)
Filargíria e pleonexia (avareza)
Lupe (tristeza)
Akedia (tristeza)
Orge (ira)
Phobos (temor)
Kenodoxia (vaidade)
Uperephania (independência do homem com relação a Deus).
Há, segundo São Máximo, 3 categorias de paixões:
1)
As paixões que decorrem da busca por prazer
2)
As paixões que decorrem da fuga da dor
3)
As paixões que resultam da soma destas duas
tendências
Segundo São Máximo Confessor
“o ser humano é levado a desenvolver nele as paixões más por causa de sua fortíssima
atração pelo prazer e por sua vivíssima repulsa pela dor, Teodoro de Mopsuéstia
e São João Crisóstomo sublinham que o medo suscitado pela morte incita
igualmente o ser humano a desenvolver paixões, porque elas lhe dão a ilusão de
viver intensamente e de manter em vida.” (pag. 29)
“Vários Padres notam que essa cura tomou a forma de uma
reconstrução, fazendo passar a natureza de seu modo de existência contra a
natureza (para physin) ao modo de existência conforme à natureza (kata physin)
que era a natureza original do ser humano. Ao mesmo tempo, Cristo deu àqueles
que estão unidos a Ele pelo batismo a graça de não estarem mais submissos ao
poder tirânico do pecado, do diabo, da passibilidade e da morte.” (pag. 30)
“Para progredir neste caminho da ascese libertadora, o ser
humano não está sozinho: ele é guiado pelos santos padres espirituais que
chegaram ao fim e que conheceram todas as dificuldades do caminho, e sobretudo
ele dispõe da ajuda poderosa da graça, que lhe permite ultrapassar os limites
de suas próprias forças e mesmo sair das maiores dificuldades, porque o que é
impossível ao ser humano é possível a Deus (cf. Mateus 19,26; Mac 10,27)”.
(pag. 30)
“O problema se coloca em um plano prático por causa
sobretudo das analogias evidentes entre a psicanálise e a confissão. (...) No
momento, nossa finalidade não é examinar as semelhanças e diferenças entre as
duas práticas, mas antes encarar o problema da compatibilidade da psicanálise
freudiana e do cristianismo no plano teórico de seus respectivos fundamentos
antropológicos”. (pag. 33)
“Primeiramente, para Freud como para os Padres, há uma ‘economia’
de energia: a energia necessariamente deve ser investida em algum lugar, e da
natureza, do sentido e da medida de seu investimento depende a boa ou má saúde
do ser humano.
Em segundo lugar, a vida interior do ser humano é habitada
por conflitos, e do fim de tais conflitos depende a boa ou má saúde do ser
humano.
Em terceiro lugar, o ser humano é chamado a um
desenvolvimento, no qual adquire progressivamente o domínio de si. Segundo
Freud, o ego, na parte de si mesmo constituída pelas faculdades superiores que
são a consciência e a vontade, é chamado a dominar o id (constituído, de um
lado, por elementos recalcados e, por outro lado, por pulsões sexuais e
agressivas que se expressam, originalmente, de maneira bruta desde a zona
inconsciente do psiquismo). ‘Lá onde estava o id’, escreve Freud, ‘o ego deve
advir’”. Do mesmo modo, os Padres consideram que, no ser humano, o espírito e a
razão devem dominar e governar a parte irracional da alma, sendo a temperança
(egkrateia) u das virtudes genéricas (genikai aretai) que condicionam a
aquisição de outras virtudes.
Para Freud, o crescimento interior do ser humano implica
igualmente que este, abandonando seu narcisismo originário, desenvolva laços
positivismos com seus semelhantes, e esta forma superior de afeição está na
base de uma vida harmoniosa. Tal concepção é análoga à concepção cristã segundo
a qual o ser humano deve subsistir o amor egoísta (filaucia) pelo amor ao
próximo e pelo amor a Deus.” (pag. 35 e 36)
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