sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Anotações e Citações do livro “O inconsciente espiritual” de Jean-Claude Larchet (LARCHET, J. C. O inconsciente espiritual. São Paulo, Loyola, 2009).

Anotações e Citações do livro “O inconsciente espiritual” de Jean-Claude Larchet (LARCHET, J. C. O inconsciente espiritual. São Paulo, Loyola, 2009).

“As doenças psíquicas não se identificam com as doenças espirituais: trata-se de doenças de natureza diferente, e convém manter a distinção entre elas.” (pag. 14)
“As doenças espirituais possuem uma origem sui generis. Algumas doenças físicas ou algumas doenças psíquicas certamente podem oferecer, às vezes, um terreno favorável a seu desenvolvimento, mas não podem ser sua causa.” (pag. 15)
“Devemos cuidar de não subavaliar (e, a fortiori, de negar) a etiologia corporal (biológica ou fisiológica) das doenças psíquicas, como algumas psicoterapias são tentadas a fazê-lo. Algumas doenças psíquicas podem ter uma etiologia puramente somática, mesmo se elas fazem intervir, quanto às suas formas de expressão, fatores psíquicos e até mesmo espirituais. Por outro lado, algumas dimensões da doença podem ser corporais, enquanto outras são psíquicas e espirituais”. (pa. 16)
“Como mostramos no capítulo que lembra os grandes princípios da antropologia cristã, esta concebe a relação com Deus como aquela que define o ser humano em sua natureza e em sua existência pessoal. Considera por isso que as diferentes faculdades humanas são naturalmente orientadas para Deus e que seu exercício é contra a natureza e anormal quando a pessoa o realiza em outro sentido. Por este exercício contra a natureza das faculdades humanas formam-se as paixões, as quais constituem doenças espirituais que devem ser propriamente distinguidas das doenças psíquicas: assim como as paixões não são doenças psíquicas, tampouco as doenças psíquicas são paixões”. (pag. 17)
“A desarmonia introduzida pelas paixões no exercício de nossas faculdades é uma desarmonia não somente espiritual, mas psíquica. Isto significa que toda doença espiritual gera uma perturbação psíquica correspondente ”. (pag. 18)
“As doenças espirituais correspondem a paixões que os Padres qualificam de ‘culpáveis’. Afirmar que as doenças espirituais desempenham um certo papel no nascimento, no desenvolvimento ou na subsistência de algumas doenças psíquicas não significa, no entanto que aqueles que são atingidos por doenças psíquicas sejam mais culpados ou mais pecadores do que os outros.” (pag. 19)
“O ser humano decaído é necessariamente habitado pelas paixões, se bem que elas se encontram em proporções diferentes nos diferentes indivíduos. Como acabamos de ver, podemos dizer que cada pessoa desenvolve uma patologia psíquica relativa à sua patologia espiritual. Mas na maioria dos seres humanos essa patologia psíquica é equilibrada, de modo que não se manifesta na forma de perturbações perceptíveis ou de doenças identificáveis”. (pag. 19)
“Mesmo quando reconhecemos que algumas doenças psíquicas dependem de uma terapêutica espiritual na medida em que elas dependem de causas espirituais, não se trata para nós de afastar as terapêuticas espirituais para fazer terapêuticas psíquicas (...). A natureza e a finalidade das terapêuticas espirituais devem ser absolutamente respeitadas, tanto mais que nelas intervêm como fonte de cura a graça e seu vetor, os sacramentos, o que significa que elas são indissociáveis do domínio sobrenatural e do domínio de vida eclesial. Os dois domínios saem dos limites de uma terapêutica ‘profana’ e excluem uma instrumentalização em proveito de fins exteriores e inferiores”. (pag. 20)
“o ser humano é destinado por natureza a se tornar deus por graça” (pag. 23)
“Assim, a inteligência em sua forma intuitiva (nous) e em sua forma racional (logos) é feita para conhecer Deus; a faculdade desejante (epithumia, epithumetikon) é feita para desejar Deus e amá-Lo; o poder irascível ou ardor (thumos) é feito para combater o mal, afastar as tentações e lançar mão do zelo de que necessita a vida espiritual; a vontade é feita para se conformar com a vontade de Deus e realizar seus preceitos; a memória é feita para se lembrar de Deus; os sentidos e a imaginação são feitos para servir de base à contemplação...” (23 e 24)
“Por um desvio e uma perversão de suas faculdades de conhecimento, o ser humano substitui o conhecimento de Deus e a contemplação das criaturas em Deus pelo conhecimento das criaturas fora de Deus e somente em suas aparências sensíveis. Por um desvio de sua faculdade desejante e de seus sentimentos, o ser humano, em vez de desejar e de amar a Deus, pôs-se a amar a si mesmo, fora de Deus, por uma atitude apaixonada que os Padres chamam de Filáucia e amar as criaturas pelo prazer sensível que elas lhe davam neste amor egoísta a si mesmo.” (pag. 25)
“Em suma, todas as faculdades da natureza humana foram assim desviadas de seu uso original, moral e sadio para um uso perverso, contra a natureza (para phusin), insensato (para logon), anormal e doentio. Assim, toda a natureza do ser humano pôs-se a existir e a funcionar fora de si mesma, em um estado não somente de alteração, mas de alienação” (pag. 26)
Doenças espirituais:
Gastrimargia (gula)
Porneia (luxúria)
Filargíria e pleonexia (avareza)
Lupe (tristeza)
Akedia (tristeza)
Orge (ira)
Phobos (temor)
Kenodoxia (vaidade)
Uperephania (independência do homem com relação a Deus).

Há, segundo São Máximo, 3 categorias de paixões:
1)      As paixões que decorrem da busca por prazer
2)      As paixões que decorrem da fuga da dor
3)      As paixões que resultam da soma destas duas tendências
 Segundo São Máximo Confessor “o ser humano é levado a desenvolver nele as paixões más por causa de sua fortíssima atração pelo prazer e por sua vivíssima repulsa pela dor, Teodoro de Mopsuéstia e São João Crisóstomo sublinham que o medo suscitado pela morte incita igualmente o ser humano a desenvolver paixões, porque elas lhe dão a ilusão de viver intensamente e de manter em vida.” (pag. 29)
“Vários Padres notam que essa cura tomou a forma de uma reconstrução, fazendo passar a natureza de seu modo de existência contra a natureza (para physin) ao modo de existência conforme à natureza (kata physin) que era a natureza original do ser humano. Ao mesmo tempo, Cristo deu àqueles que estão unidos a Ele pelo batismo a graça de não estarem mais submissos ao poder tirânico do pecado, do diabo, da passibilidade e da morte.” (pag. 30)
“Para progredir neste caminho da ascese libertadora, o ser humano não está sozinho: ele é guiado pelos santos padres espirituais que chegaram ao fim e que conheceram todas as dificuldades do caminho, e sobretudo ele dispõe da ajuda poderosa da graça, que lhe permite ultrapassar os limites de suas próprias forças e mesmo sair das maiores dificuldades, porque o que é impossível ao ser humano é possível a Deus (cf. Mateus 19,26; Mac 10,27)”. (pag. 30)
“O problema se coloca em um plano prático por causa sobretudo das analogias evidentes entre a psicanálise e a confissão. (...) No momento, nossa finalidade não é examinar as semelhanças e diferenças entre as duas práticas, mas antes encarar o problema da compatibilidade da psicanálise freudiana e do cristianismo no plano teórico de seus respectivos fundamentos antropológicos”. (pag. 33)
“Primeiramente, para Freud como para os Padres, há uma ‘economia’ de energia: a energia necessariamente deve ser investida em algum lugar, e da natureza, do sentido e da medida de seu investimento depende a boa ou má saúde do ser humano.
Em segundo lugar, a vida interior do ser humano é habitada por conflitos, e do fim de tais conflitos depende a boa ou má saúde do ser humano.
Em terceiro lugar, o ser humano é chamado a um desenvolvimento, no qual adquire progressivamente o domínio de si. Segundo Freud, o ego, na parte de si mesmo constituída pelas faculdades superiores que são a consciência e a vontade, é chamado a dominar o id (constituído, de um lado, por elementos recalcados e, por outro lado, por pulsões sexuais e agressivas que se expressam, originalmente, de maneira bruta desde a zona inconsciente do psiquismo). ‘Lá onde estava o id’, escreve Freud, ‘o ego deve advir’”. Do mesmo modo, os Padres consideram que, no ser humano, o espírito e a razão devem dominar e governar a parte irracional da alma, sendo a temperança (egkrateia) u das virtudes genéricas (genikai aretai) que condicionam a aquisição de outras virtudes.
Para Freud, o crescimento interior do ser humano implica igualmente que este, abandonando seu narcisismo originário, desenvolva laços positivismos com seus semelhantes, e esta forma superior de afeição está na base de uma vida harmoniosa. Tal concepção é análoga à concepção cristã segundo a qual o ser humano deve subsistir o amor egoísta (filaucia) pelo amor ao próximo e pelo amor a Deus.” (pag. 35 e 36)





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