Não vejo, sinceramente, como o tomismo não poderia dar vazão
ao espírito humanista que se seguiu após a escolástica. Para mim, como eu já
disse muitas vezes, o humanismo é consequência inevitável da analogia entis que ao invés de conceber
Deus como o Ente inacessível por sua essência e acessível por suas energias,
acabou por colocar Deus como imagem e semelhança do homem a partir do conceito
de analogia. Isso é óbvio: como podemos fazer analogia com o inacessível? Ou
seria falando do homem como em si inacessível, que é o que faz a teologia
ortodoxa, ou falando de Deus como se fala do homem, que é o que faz tanto o
catolicismo quanto o protestantismo. Espinosa viu no deus escolástico um deus antropomórfico,
e esta intuição de Espinosa, contra a qual lutei com todas as minhas forças,
estava absolutamente certa.
O catolicismo romano é apenas a continuidade da filosofia e
metafísica platônica e aristotélica, as quais deram origem a uma série de
heresias e não a sua transfiguração, como em São Dionísio. Com São Dionísio o
helenismo se cristianiza e se transfigura. Com Agostinho, São Tomás, temos
apenas a continuidade do pensamento grego, injetando-se nele uma certa
concepção trinitária (a qual é tão inflexível quanto o Uno plotiniano) , na
qual as pessoas divinas estão subordinadas a uma unidade que é a priori
garantidora delas. Por isso mesmo o Filoque: o Filioque não seria as relações
internas que se estabelecem entre duas pessoas engendrando-se uma terceira? Não
existe nele uma primazia da Unidade em detrimento das pessoas?
Por isso estas vertentes perenialistas dentro do catolicismo
romano, que acreditam existir uma filosofia perene a qual se consumaria com o
cristianismo. O cristianismo teve uma sabedoria inclusiva não no sentido de
sair incorporando tudo, mas no sentido de ir transfigurando aquilo que poderia,
de certo modo, servir como prenúncio da deificação da carne, sua
transfiguração, que é o que está por trás da vida sacramental. Assim, eu não
vejo, sinceramente, como uma concepção perenialista não possa conduzir, inevitavelmente
a certo ecumenismo, ainda que o cristianismo possa ser sua palavra final, seria
um jeito de se conseguir uma unidade transcendente de tudo, um jeito pagão e
não cristão de se resolver as coisas.
A cada dia que passa eu me convenço de apenas uma coisa: só
existe uma fé verdadeira, a ortodoxa. Existem cristãos que mesmo no erro, por
pura misericórdia de Deus, possuem acesso a estas energias devido mesmo ao seu
alto grau de esforço de viver em comunhão com Deus. Mas o catolicismo romano é
tão errado quanto o protestantismo, uma vez que não poderia não ter a ele como
consequência necessária. Não nasceu o nominalismo no seio do próprio
catolicismo? Não fora Guilherme de Ockam discípulo de Duns Scotus? O dogma da
Imaculada Conceição, pensado por Duns Scotus, não mostra que Maria, toda pura,
fora santificada e transfigurada pelo próprio Verbo Encarnado, mas como pura e
santa independente dele. Neste dogma não vemos a deificação da matéria, apenas
uma visão gnóstica na qual a matéria, que deveria ser impura, teve uma origem
diversa de qualquer outra, sendo esta matéria não mais impura. Como seria então
matéria? Parece-me que é quase dizer que Maria teria outra matéria que não a
nossa, uma espécie de eón, quando não parece que ela seria o próprio Espírito
Santo, reproduzindo-se, assim, a trindade pagã de Horus, Isis e Osiris, Pai,
Mãe e Filho. Estou convencida a estudar mais profundamente o tomismo para poder
refutá-lo com Gregório Palamas. O sentido dos meus estudos tem sido este.
O empirismo naturalista de São Tomás é uma
grande saída filosófica se estamos num universo pagão e grego, pois é a
consumação do próprio aristotelismo, mas é nada perto de tudo o que a Teologia
Mística nos oferece enquanto experimentação das energias divinas, e o próprio
Tomás se deu conta disso. Em suma, percebo que existem almas santas que querem
dialogar com o catolicismo romano, tentando aprender algo com os católicos, mas
vou ser bem sincera. Como alguém que conhece bem além da média o catolicismo
romano e que está começando a conhecer a ortodoxia, só existe uma única saída:
o retorno às origens. A ortodoxia é a casa sobre a Rocha, o Cristo. E sendo
assim, ela conseguiu se manter inabalável.
Perdoe-me se minha visão é por
demais fechada: esta ideia de que romanos, protestantes e ortodoxos se entendem
em termos místicos não me convence. Seria o mesmo que entrar na esparrela de
Thomas Merton de que budistas, hinduístas e cristãos se entendem num sentido
místico. Ou se está com Cristo, a rocha da ortodoxia, ou se está com o mundo,
mesmo que o mundo possa produzir também um tipo específico de misticismo.
Porque quando falo de “mundo” não falo de coisas materiais, mas do espírito do
mundo. Enquanto o catolicismo romano é apenas a continuidade da filosofia
grega, não tem como não cair no gnosticismo no qual entraram todos aqueles que
deram um peso maior ao platonismo e ao aristotelismo, mesmo que se tratando de questões
cristãs.
Rochelle, se puder me responder eu agradeço: qual é a relação dos dogmas católicos com a Igreja Ortodoxa? E como Maria é vista na Igreja Ortodoxa? (Eu tenho tanto a estudar!) Fiquei curioso com a sua repentina -- "repentina", eu sei, para quem está de fora -- mudança.
ResponderExcluirAmigo, acabei de gravar um aula sobre isto. Estou montando um curso sobre cristianismo bizantino, com aulas de uma hora e assim que ele ficar pronto te passo o link. Ele será gratuito. Não dá para falar muito disso aqui, mas já percebeste, pela postagem, que o Dogma da Imaculada Conceição pode conduzir (digo que pode, não que o conduza necessariamente, pois um ortodoxo não se torna herético se crer nele) a uma visão gnóstica e a uma deificação de Maria.
ResponderExcluirA Santa Mãe de Deus, toda Pura e Santa, foi santificada pelo próprio Verbo Eterno. Maria no Oriente é bem mais venerada do que no Ocidente, mas muitas vezes o culto a Maria no Ocidente cai em Mariolatria e a uma falsa compreensão da figura da Teotokos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirMuito obrigado pela atenção, Rochelle. Ficarei muito feliz e grato em receber o link do curso.
ExcluirAh, e quanto aquele link que lhe enviei, pensei que pudesse gostar pelas músicas, ainda que cantadas em russo. Sei que nós, que cremos no Significado dos significados, por assim dizer, se quisermos ser consequentes com a nossa crença, devemos gostar das coisas com entendimento, mas especificamente nesse caso ACHO que não estou arriscando demais. Um dia aprendo algo de russo e verifico por mim mesmo se estava errado! rs Tenho, afinal, um curso em Pimsleur de russo. Se quiser participar desse delito (receber as lições em áudio), me diga!