Educação pelos clássicos, parte II
O prenúncio de uma estratégia de
sobrevivência
Resumo: O ensaio filosófico
apresentado procurará mostrar como a educação a distância é estratégica não só
para a divulgação do conhecimento, da informação, da produção de conhecimento
com extrema eficácia e rapidez, mas também meio necessário para que atividades
de mobilização e de democratização sejam realizadas e assim possamos, por fim,
nos engajar em estratégias de luta e ativismo por meio do cyberespaço. A
educação a distância tem se mostrado o meio mais profícuo na divulgação de
ideias e temas. Quem não sabe usar a plataforma virtual da web não apenas deixa
de aprender e de educar, como mesmo se priva da participação pública, chave
inconteste do mergulho para além do óbvio e do enlatado. Se há muito lixo
produzido na web, apenas por meio do conhecimento que teremos as ferramentas e
critérios para a separação do joio e do trigo. Assim, a própria internet, como
espaço de aprendizagem, nos dá chaves para que possamos saber usá-la em
proveito próprio.
Palavras chaves: Tradição Ocidental,
cultura, declínio, educação pelos clássicos, pluralismo e democracia
O
leque das incertezas
Croyez-moi, mon ami, há
muito mais amor do que ódio no mundo. Os céus não sustentam uma farsa, mas um
drama cósmico o qual, por felicidade e esperança, estas grandes fiéis amigas da
humanidade, haverá de acabar. Há sempre um caminho ainda não trilhado, há
sempre um atalho que não fora explorado. Não se pode perder as estribeiras,
entregar os pontos, dá-se por vencido nunca. Haverá sempre um modo de
conseguirmos, apesar de tudo, sorrir.
Por que digo isso? A
leitura memorável de “O Declínio da Civilização Ocidental” de Allan Bloom, bem
como as tentativas absurdas de Alexandre Dugin em seu debate com Olavo de
Carvalho de justificar uma guerra contra o Ocidente, exigiram de mim, por dever
de consciência e por amor ao Ocidente, com alarmante preocupação, fazer minha
defesa contra o declínio certeiro e ininterrupto de nossa civilização que se
deflagra com nítida rapidez e irreversivelmente diante de nossos olhos. Não se
trata então apenas de uma queda, uma decadência que se impôs por um processo de
podridão interna, como Bloom e mesmo Nietzsche já antevira. Trata-se também de
um processo que se consagra mediante a luta com forças externas implacáveis,
configurações geopolíticas potentes. O ódio ao Ocidente é uma realidade cada
vez mais presente. Este ódio se mostra ao ódio ao catolicismo, ao
protestantismo, aos Estados Unidos, ao Estado de Israel que junto com a Grécia
formaram o cristianismo, berço do Ocidente. Mas tal aversão se mostra também
quando ocidentais tentam viver de maneira ridícula e superficial práticas
orientais desconectadas de suas doutrinas, de suas asceses, de suas tradições e
contextos, mostrando que preferem ser engraçados a serem fieis e comprometidos
com algo que seja verdadeiramente grande. Num só golpe desferem o punhal não só
no Ocidente, mas, sobretudo no Oriente, que acaba tendo de se adaptar a uma
visão caricata e tosca de mundo. Tenho como convicção plena de que só poderia
verdadeiramente admirar a cultura oriental, com suas matizes, nuances e
riquezas, quem antes conhecesse sua própria casa. Porque não se pode comparar a
grandeza de alguém quem não possui um critério mínimo de grandeza. A tradição
ocidental possui um número infindável de místicos, metafísicos, pensadores da
Idade Média, sobretudo que não afirmam realidades, nem conceitos, nem
experiências que percam em nível de profundidade com os mestres do Oriente. Mas
o homem moderno, incapaz de admirar o que é verdadeiramente nobre e eterno e
compactuando aberta, arrogante e solicitamente com sua suprema ignorância como
medida de valoração das coisas, regozija-se de desconhecer-se sua própria
tradição, restando-lhe apenas assistir comodamente destroçar-se tudo de bom que
o Ocidente nos logrou, como a democracia, o conceito de dignidade humana, o
valor supremo da vida humana. Ora, falar de esperança diante disso é possível?
Há esperança para o que mata qualquer esperança? Se eu julgasse que a vida se
reduz à nossa percepção limitada dos acontecimentos, endossaria,
indubitavelmente, a tese da “não possibilidade de qualquer esperança”. Mas,
como creio que há sempre o imponderável, que sempre há uma contingência a nos
espreitar, um acaso que é imprevisível quanto ao momento de sua manifestação,
mas que é previsível quanto ao seu surgimento mais cedo ou mais tarde, não
posso, não devo e não quero furtar-se a acalentar este último resquício e asilo
da esperança.
Há que se desvencilhar de
tudo o que nos tem desgastado inutilmente para podermos continuar vivendo com
um mínimo de dignidade. Esta é uma regra não só de sobrevivência, mas de
higiene mental. Não há momento mais duro e pesado do que aquele que temos de
nos decidir a encarar o monstro e nos decidir a lutar contra ele. Só existe uma
saída honrosa: a luta. Morrer lutando ou ser vitorioso é consequência
inevitável de quem optou, afinal, pelo lado certo. Resistir ao mal pode ser a
única substância preciosa de nossa vida, e é grande porque é uma luta contra a
destruição e a morte. Não creio que sair vitorioso seja sorte maior do que
morrer em campo, uma vez que a verdadeira glória resta àqueles que foram
capazes de em nome de algo maior sacrificar suas próprias vidas. Eu aceitei
este caminho.
A incerteza do Bem e a
certeza do Mal
Por que disse isso tudo? O
que pode ser de tão certo quanto a certeza do mal? Como deter um processo de
decadência que nos engole rumo ao nada, ou a uma ruína tão miserável quanto o
nada?
Não há como deter este
processo quando se é um indivíduo único. Portanto, esta tarefa tem de ser de um
exército, de quem sabe estar integrado a uma causa maior do que si mesmo. E a
tarefa, talvez, seja apenas a de fazer de tudo para retardar o seu processo, a
saída mesmo dos desesperados. Estamos, infelizmente, diante de um embate
dialético. Existem forças que não se destroem: se transmutam. E esta
transmutação as torna irreconhecíveis enquanto mal e por isso quase
invencíveis. Você não pode deter sua própria morte, mas se souber que está
doente, vai agarrar-se ao último fio de esperança para prolongar a sua vida. E
vai fazê-lo quanto mais souber ser sua doença incurável. Não nos cabe, então,
criar esperanças vagas ou projetos irrisórios. Cabe-nos lutar pelo que não
merece definhar, pois possui um valor eterno e pode mesmo ser o espelho
certeiro da humanidade. Cabe-nos deter a morte daquilo que amamos.
Vejam, isto não é defesa
insólita de um tradicionalismo, como se qualquer tradição, por si mesma,
merecesses ser conservada a todo custo. Mas defendo que sim, a tradição
Ocidental Cristã o merece. Não se trata aqui apenas de uma defesa apaixonada de
quem é cristã por convicção e pela Graça. Mas de um amor que é fruto do
conhecimento. Um amor que sobeja o espírito não por apego atávico, mas por
desejo de conhecimento, o pequeno grande ensinamento introdutório de
Aristóteles no início do livro Alfa.
Há apenas um modo de fazer
o que é o certo: mas há infinitos modos de encontra-lo e descobri-lo.
Na primeira parte deste
artigo, na edição anterior, eu falava sobre o encontro que tive com Mortimer
Adler. Minha formação filosófica foi muito latinófila e francófila, de modo que
eu jamais presumiria que um norte americano mudaria para sempre o curso de meu
divagar intelectual e fizesse deste divagar um verdadeiro vagar, uma caminhada
que sabe onde quer chegar, o que se está a fazer, porque se está a fazer isso,
e como se deve empreender esta viagem.
Adler tivera uma intuição
filosófica, existencial e pedagógica muito similar à minha, também na
juventude. Ele observara que as instituições educativas funcionavam comumente
como instituições promotoras da mediocridade, nivelando e uniformizando os
indivíduos. Se o objetivo da educação é homogeneizar os homens, nivelar as
experiências, reduzi-las a eventos repetíveis e calculáveis, então não haveria
nada pior ao homem do que a educação. Bem, sabemos que nem toda educação se
presta a produzir tais resultados deletérios. Qual seria então a melhor
educação?
Na terceira parte deste
artigo, que já se estendeu demais, eu falarei mais e melhor sobre a Educação
Clássica. Por ora, não descreverei com pormenores a Educação Liberal, educação
que nasce na Antiguidade e assumiu plena força no Medievo, a qual Adler vai
aderir e criar seu Paideia Program. Falarei
apenas do egrégio intento deste grande homem, que nos antigos encontrou as
ferramentas necessárias para a compreensão da tradição clássica ocidental e o
modo como podemos, dentro de nossa própria tradição, nos encontrarmos e
pensarmos sobre as grandes questões da humanidade. Este último tentame fora
feito no livro “Como pensar sobre as Grandes Ideias”.
Os povos mais sábios
Há povos mais sábios do
que aqueles que conhecem, reverenciam e compreendem suas próprias tradições?
Porque os japoneses e os judeus são tão admiráveis? Porque descendem de
tradições admiráveis e porque valorizam estas tradições. E quando deixarem de o
fazê-lo estarão condenados a sucumbir.
Qual a força que
possibilitou o predomínio por mil anos de Cristianismo na Europa? Certamente o
nível de cultura proporcionado pelo cristianismo. Ora, quando a sua tradição é
vista como algo que também o constitui, mesmo que você possa confrontar-se com
ela, este confronto nunca é no sentido de aniquilá-la, mas de reatualizá-la,
pois caso contrário seria mero suicídio. O confronto está no sentido de poder
expandi-la, torna-la ainda mais aberta. E isto é possível, no caso da tradição
Ocidental, porque em seu cerne universalista está explicitamente considerada a
ideia de inclusão. Assim nasceu o cristianismo. Vejamos o que fala Nikolai
Velimoric:
Pelo seu nascimento
Ele incluiu e reuniu todos, desde o mais baixo ao mais alto, o natural e o
sobrenatural: estábulo, manjedoura, palha, ovelhas e pastores de um lado;
estrelas, anjos, magia e uma origem real davídica de outro.Em sua vida ele
incluiu a austeridade dos monges da Índia, de João Batista e dos Nazarenos por
um lado; e por outro, o banquete moderado de Confúcio, nas casas dos amigos, na
festa matrimonial ou em outras ocasiões solenes.
Sua
vida foi entrelaçada à vida de pessoas de todas as classes; homens, mulheres e
crianças, judaístas e pagãos idólatras, o Rei Herodes e o pró cônsul Pilatos,
sacerdotes e soldados, mercadores e mendigos, sofistas versados e tolos
ignorantes, enfermos e sãos, justos e pecadores, Judeus e Egípcios, Gregos e Romanos, e todos
aqueles outros que podiam ser encontrados na Palestina, o lugar de todas as
raças e credos.
Ele
não foi de modo algum um homem partidário, como os fariseus e os doutores da
Lei. Mas ele chamou tanto os fariseus quanto seus inimigos a segui-Lo. Ele foi
ao templo para rezar, mas Ele rezou também sozinho no deserto. Ele guardou o
Sábado, mas Ele também quebrou o Sábado ao curar um doente e fazer o bem neste
santo dia. Ele não veio destruir a Lei, mas ele trouxe algo maior do que a Lei
e ainda incluiu a Lei mesma, isto é, amor e misericórdia.
Ele
censurou pessoas que costumavam rezar dizendo: “Senhor! Senhor!”. Ainda que Ele
mesmo rezasse frequentemente. Ele censurou aqueles que ficavam jejuando, ainda
que Ele mesmo jejuasse. O que Ele realmente olhava não era nem para a oração,
nem para o jejum, mas o espírito em que se jejuava ou rezava.
Ele
ordenou o povo a dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Ele
não censurou esta ou aquela forma de governo, nem acentuou nem o Monarquismo,
Republicanismo, ou Socialismo como formas preferíveis sobre outras. Sob Este
esquema todas as formas de governo estão incluídas como igualmente boas ou más
de acordo com o lugar que elas reservam para Deus, quais dons se dão
regularmente a Deus e por qual espírito eles são inspirados.
Ele
seguiu o costume de Sua nação, e não os quebrou ou se evadiu propositadamente.
Ele tocou comida de acordo com a Lei, e foi à Cidade Santa e tomou parte na
veneração do templo (“ainda que Ele fosse maior do que o templo!”), seguindo a
Lei. Parece que Ele não excluiu nenhuma forma de veneração ou vida social,
ainda que Ele desprezasse o espírito impuro e mesquinho com o qual os
hipócritas ornavam estas formas. E quando Ele veio para a disputa, Ele, o
Mensageiro de um novo espírito, naturalmente procurou salvar o espírito puro
sem referência a qualquer forma do que uma forma ornada de espírito impuro.
Finalmente ele se sentiu constrangido a dizer: “Não é o que entra na boca do
homem que o torna impuro”, ou “comer com as mãos não lavadas não torna o homem
impuro”, ou “Tu, quando Tu fores rezar, entra no teu quarto”, etc.
E
assim também Ele abraçou todas as nacionalidades e raças. Nada daquilo que Deus
criou era impuro para Ele, nada a não ser o espírito impuro. Quando o centurião
romano pediu-lhe ajuda, Ele a deu prontamente. E quando o povo além das
fronteiras israelitas, das costas de Tiro e Sidônia, creram nEle, Ele não deu
ouvidos às advertências exclusivistas de Seus discípulos, mas distribui mesmo
lá Sua divina misericórdia. Ele foi cuidadoso mesmo com as pessoas de Nínive. E
quando Ele enviou Seus discípulos, Ele os enviou a “todas as nações”.
Finalmente
ele incluiu o natural e o sobrenatural. Ele conversou com espíritos. Ele viu
satã como o relâmpago caído do céu. Ele esteve entre Pedro, João e Tiago de um
lado, e Moisés e Elias de outro. Todas as pessoas viram lírios no campo e aves
no céu, mas Ele viu além, Ele viu como, Seu Pai vestia os lírios do campo e
como Ele alimentava os pássaros. Ele uniu o natural e o sobrenatural em seus
ensinamentos.
“Amai
vossos amigos”, era o ensinamento natural. Mas Ele acrescentou: “e aqueles que
vos odeiam e perseguem”, que era sobrenatural.
“Dai
a quem vos dá”, era um ensinamento natural. Mas Ele acrescentou: “e aqueles que
Vos amaldiçoam”, que era sobrenatural.
E
Ele uniu o natural e o sobrenatural em sua morte. Ele sofreu e morreu em
agonia. Ele ressuscitou da morte, desceu do Céu e ascendeu ao Céu. Por Ele
houve tão poucos limites entre Céu e Terra, entre Natureza e SobreNatureza,
como entre Israel e Canaã, ou entre homem e homem, ou forma e forma.
Sua
sabedoria era inclusiva do início ao fim. O que Ele excluiu, salvo o espírito
impuro? Seus discípulos eram tão exclusivistas como qualquer um costuma ser,
ser exclusivista é julgar e agir de acordo com a sabedoria natural. Mas quando
eles olharam para Ele, eles foram reconciliados. Era a Santa sabedoria, em que
qualquer um podia encontrar uma morada para si mesmo, todo discípulo, toda
nação, toda forma de veneração, tudo – salvo o espírito impuro.( http://teologosortodoxos.blogspot.com.br/2012/10/a-agonia-da-igreja.html)
O cristianismo nasceu como
sabedoria inclusiva. Não meramente como uma seita judaica, mas como uma
promessa de salvação universal que dizia respeito a todos. Não se pode pensar o
Ocidente à parte disso. Mesmo todos os movimentos nacionalistas ou de afirmação
da soberania nacional ocidentais, não o fazem com vistas a anular os demais,
mas com o pressuposto de que interesses externos não podem colocar em risco a
vida do próprio povo. Em suma, eu tenho um compromisso com o Outro, mas este
compromisso não pode levar ao aniquilamento do Eu, da minha própria identidade.
A inclusão do Outro exige um nível mínimo de reciprocidade, senão é apenas uma
anedota suicida. E assim é a questão ao apego à tradição: apenas um povo sem
amor a si mesmo, sem um mínimo de autoconfiança, autoestima, pode negar o seu
passado. Reassumir o papel e o valor do passado naquilo que nós somos,
reconciliar-nos com ele, pode permitir uma atitude crítica capaz de rever,
rejeitar e consertar erros passados. Uma cultura sem confiança em seu próprio
passado é incapaz de encontrar sentido em si mesma. Ou irá para a Cultura da
Nova Era, uma mixórdia de elementos mal compreendidos e mal conectados pegos ao
sabor dos ventos, da própria tradição, ou, então, para as tropas do senhor
Dugin, que não vê a hora de juntar o nacionalismo russo com o califado islâmico
e todos os inconformados para varrer o Ocidente da face da terra. Não há amigo,
o que fazer: ou entramos na luta ou então sucumbir é o fim inevitável. Declínio
cultural ocasionado não apenas por seus inimigos, mas por uma força interna
misteriosa malévola, que vai reduzir toda a distinção entre opinião e
conhecimento, e relativizando os valores de Bem, Belo e Verdadeiro acabarão por
solapar qualquer possibilidade de valoração humana, uma vez que tudo se
reduzirá ao mesmo.
Não nos enganemos então:
apenas a vitória do Ocidente Cristão pode deter a colonização ocidental do
mundo, uma vez que esta colonização não é fruto do cristianismo, mas de uma
elite financeira que controla o mundo. A globalização é para todos o que amam o
seu passado o que há de pior, uma vez que ele nega cada vez mais um acesso
privilegiado a ele, promovendo, por outro lado, uma exaltação acrítica e
infantil do futuro, que nada mais é do que o nivelamento e desconsideração de
todas as diferenças significativas do mundo. Retornar aos clássicos, aprender
com eles, seja através de ambientes educativos presenciais, seja em ambientes
virtuais é estratégia de sobrevivência e não um luxo burguês, como pareceria à
primeira vista.
Quais clássicos?
Não vou me estender mais
para não turvar a vista de meu paciente leitor. O grande paradoxo que norteia a
vida de todos nós que fizemos da Educação a substância de nossas vidas, reside
na impossibilidade de compreender porque o que é mais urgente de se ensinar,
não conseguimos nunca ensinar verdadeiramente e profundamente.
Deixarei pistas de como
podemos construir pontes de acesso aos clássicos pelo Ambiente Virtual de
Aprendizagem, e rogo aos céus o testemunho de meu tentame.
Qualquer livro que esteja
em Diálogo com outros livros dentro de um contexto sócio-cultural-histórico
amplo, é um clássico. Por isso, rememorando Ítalo Calvino, um “clássico não é
apenas lido, mas relido”. Creio que esta definição geral é capaz de abarcar a
especificidade da questão sem, contudo, reduzi-la a um amálgama de elucubrações
desnecessárias a fim de comprovar porque A é um clássico e B não seria.
Ademais, é capaz de mostrar como mesmo obras que poderiam estar ‘fora da
tradição’ Ocidental, como a tradição oral ameríndia pré-colombiana, ou a
literatura africana, uma vez que, entrando em confronto ou em diálogo com a
tradição ocidental, pelo princípio da inclusão que marca a tradição ocidental,
não poderiam ser negligenciados por ela. O mesmo valeria para a literatura
judaica e islâmica que também ajudaram a formar a cultura ocidental.
Veríamos assim um
território bastante vasto para ser conquistado e quanto mais vasto, mais
interessante, mais inexplorado, maior também o pecado de ignorá-lo. Consoante a
preguiça dos intelectuais, que apenas têm servido de propaganda contra a
tradição cristã, a tradição ocidental tem sido cada vez mais um espaço vazio,
quando deveriam ser introduzidas e ensinadas às crianças desde cedo. Crianças
não têm sido educadas, nem conhecem nada de sua própria cultura. Um exemplo
corrente disso é não conhecerem museus, não frequentarem bibliotecas, teatros,
não conhecerem os grandes heróis da literatura, o que lhes infligiria um desejo
enorme por virtude e heroísmo. As crianças estão sendo abarrotadas com
conceitos forjados, com uma linguagem cada vez mais asséptica que disciplina
seus pensamentos e estão apenas sendo doutrinadas. A experiência com a arte,
com a música e com atividades físicas sempre fora a etapa inicial da educação
dos pequenos. Arte, aqui, é dita ser a técnica de imitação que procura copiar o
Belo. Estariam incluídas nas artes e música as fábulas, poesias, as artes
pictóricas e a escultura.
Se o desejo de
conhecimento é algo natural ao homem, ensinamento aristotélico que não é
difícil de ser atestado, e se o filosofar nasce do espanto, outra afirmação
aristotélica, embora não exclusiva dele, então é preciso que nosso amor ao Belo
nos conduza a uma incessante experiência de admiração e espanto, sem a qual o
desejo de conhecimento não se atualiza.
Os clássicos da literatura
precisam ser constantemente conhecidos. Quem lê os 10 Mandamentos acredita ou é
levado a crer, que o adultério é uma transgressão moral e que é interditado por
Deus. Quem lê Ana Karenina, compreende que esta transgressão moral não é
totalmente destituída de virtude, que pode até inspirar certo heroísmo com o
aniquilamento de si mesmo, uma vez que a transgressão moral sempre é também um
reposicionamento existencial. Quem lê os 10 Mandamentos Bíblicos aprende
também, por exemplo, que matar é pecado. Quem lê “Crime e Castigo”, no entanto,
compreende que há um limite no ato de matar que é imposto pela própria
consciência e uma vez que se negligencie isto se pagará um tributo de um modo
ou de outro. Ou assumindo a culpa ou enlouquecendo ou se despersonalizando por
completo.
Se a filosofia e a
religião podem trabalhar com valores enquanto entes necessários e eternos,
somente a Literatura, o Cinema e o Teatro conseguem nos mostrar as
consequências que podemos ser conduzidos quando aceitamos ou rejeitamos tais
valores. Somente eles problematizam verdadeiramente a direção humana que cada valor
encerra em si mesmo.
Clássicos
em Ambiente Virtual
Não há dúvidas de que não
existe atualmente em curso nenhum ambiente que permita a troca, a discussão, a
mútua descoberta e o encontro com o inaudito como a internet. A web possui um
poder de revelação do nosso nível de ignorância que só perde para o Oráculo de
Delfos. Assim, fomentar fóruns de discussão em AVA para a leitura e a análise
de obras clássicas possui uma dimensão estratégica fantástica e amplia
consideravelmente o campo de alcance dos clássicos.
T. S. Eliot dizia que um
“livro que não desafia a sua inteligência, nem merece ser lido”. Isso é
verdade. A boa leitura exige sempre um mobilizar da experiência de modo que não
apenas diga o que queria dizer, mas diga os diferentes caminhos que as coisas
podem ser enunciadas, as experiências podem acontecer. O que mais exige
sacrifício de nós, é o que mais nos traz prazer, como já ensinava o grande
pedagogo francês Alain.
Conhecer obras clássicas
da filosofia, da literatura, da educação e da história da ciência nos permite,
inevitavelmente, ter um instinto rápido para saber distinguir o conhecimento da
mera opinião vaga. A defesa de uma atmosfera pluralista de discussão não pode
significar a redução do conhecimento à opinião, nem ao nivelamento de tudo à
mera opinião. Seriam todas as religiões questão de opinião? Ora, considerando
que tradições como a Egípcia, a Babilônica, A Cristã, A Hindu, a Budista, a
Islâmica, a Judaica, por exemplo, foram civilizações milenares, enquanto opiniões
só podem se firmar por longo período de tempo se forem opiniões certas, não se
pode reduzir todo este conhecimento civilizacional como se não possuísse algo
de universal. É descabido comparar qualquer uma destas tradições com movimentos
religiosos circunstanciais e situacionais, ou considerar que possuam algum
peso. Só o tempo pode dizer a ponderação de cada um. Quem quer que se debruce
sobre livros como a Bíblia, o Tao Te Ching, o Alcorão, O Livro das Mutações, o
Bhagavad Gita, por exemplo, saberá que não se está diante de uma literatura
qualquer. São obras clássicas do Pensamento Universal e qualquer pessoa culta
do Ocidente deveria demonstrar interesse em conhecê-las na medida em que são
obras que podem dialogar sim com o Ocidente.
Conclusão:
O AVA precisa ser cada vez
mais explorado como um local privilegiado de acesso à Alta Cultura, ainda que
saibamos que a internet não filtre a alta cultura da baixa cultura, e é bom que
seja assim.
Precisamos nos convencer
cada vez mais de que nosso apego ao nosso passado grego, judaico, romano e
cristão poderá nos possibilitar compreender o lugar e a imagem de homem que foi
construída no Ocidente, a qual é o cerne da noção de democracia e dignidade
humana.
Temos muito a aprender com
os demais povos e não podemos nos deixar sucumbir à arrogância, que é muitas
vezes fruto de julgamentos precipitados daqueles que não conhecem nem a si
mesmo e logicamente, nem aos outros. O primado e a excelência da educação exige
o desenvolvimento contínuo de um senso de responsabilidade que prefere amar e
cuidar do outro a priori para então sim poder conhecê-lo. Quem acredita
conhecer antes de amar inviabiliza tanto o amor quanto o conhecimento, pois a
gratuidade está no amor e não no conhecimento.
Obviamente, porém, isto
não pode significar a imposição de padrões ocidentais de comportamento, já que
esta homogeneização do mundo também é inimiga da tradição ocidental. Mas pode
sim e deve significar a imposição do valor referente à dignidade humana e o
homem sempre como um fim em si e nunca como um meio. Considerar esta imposição
uma violência é não levar em conta que apenas este valor garante a proteção de
todas as diferenças e a manutenção das diferentes culturas que estão no globo.
Nem toda imposição é violência. Se imponho uma regra que irá salvar vidas, que
mal há nesta regra? E se for uma violência, considere, então, que violência não
é sinônimo de mal.
A despeito, então, de todo
o mal que vem corroendo o Ocidente por dentro, seu relativismo inconsequente,
sua escolha aberrante em ser ignorante de si mesmo, seu niilismo, sua juventude
vazia e infértil, seu processo inevitável de auto aniquilamento, e a despeito
também de todos os seus inimigos externos, o Islam, que de religião gloriosa em
termos místicos e filosóficos tornou-se meramente um movimento político de
implantação do califado, ou países como China e Rússia que declaram que o
Ocidente precisa desaparecer, creio que ainda o grande recado do Ocidente
precisa estar respaldado no ensinamento do Deuteronômio, que resume toda a Lei
e os Ensinamentos dos Profetas: “Ame a Deus com toda a sua força de alma e ao
próximo como a si mesmo”. Sem autorespeito, sem auto-amor, não nasce nenhum
amor genuíno. Exigir que o Ocidente se verta em uma consciência culpada e disso
exigir amor, ou respeito, ou reparação, é violar a própria Lei do amor, que é
um movimento gratuito fruto não de uma consciência culpada, mas liberta da
culpa e plena de entrega.
Ao violar este preceito
que exige que para todo amor haja um auto-amor precedente, o amor que nasceria
seria subserviente, culpado, um amor que aniquilando a si acabaria por
idolatrar aos Outros. Ora, apenas Deus pode ser venerado. E Deus é na tradição
Ocidental aquele que se deixou conhecer parcialmente pela Revelação, uma vez
que o homem é capaz de verdade e Deus é também uma realidade captável pelo
intelecto. Mas é também um Deus escondido, ou seja, inacessível, inobjetivável,
como aliás é qualquer pessoa. Se Deus estivesse apenas na esfera do inefável,
estaríamos totalmente sujeitos ao arbítrio do desconhecido. Se Ele fosse
plenamente conhecível, não seria Deus, posto que um intelecto finito, o humano,
não pode compreender plenamente o infinito. Mas porque Deus ora se revela, ora
se esconde que podemos venerá-lo ante a perfeição que intuímos e conhecemos e
ante também a imensidão que nos escapa.
Sob o espelho do Outro ou
dos Outros, como imagem e semelhança de Deus, tal como nós, podemos estabelecer
não só os planos de convivência e diálogo, mas sobretudo de solidariedade e
amor.
Que frente ao progresso da
iniquidade nosso amor não esmoreça, e nem se esvaia a fé na Verdade Encarnada
que foi o grande ensinamento do Ocidente, e seu grande legado.
Bibliografia:
ADLER, M. Como ler livros. São Paulo: É
Realizações, 2010.
____________. Como Pensar sobre as Grandes Ideias. São
Paulo: É Realizações, 2015.
BLOOM, A. O Declínio da Cultura Ocidental. São
Paulo: Beste Seller, 1987.
CARVALHO, O. de A Nova Era e a revolução Cultural. Campinas:
Vide Editorial, 2014, 4ª. Edição.
____________. Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Campinas:
Vide Editorial, 2012.
VELIMIROVIC, K. Short Works
of Nikolai Velimirovic,
Bibliobazar, 2008
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