terça-feira, 27 de setembro de 2016

Educação para uma nova civilização

Educação pelos clássicos, parte II
O prenúncio de uma estratégia de sobrevivência

Resumo: O ensaio filosófico apresentado procurará mostrar como a educação a distância é estratégica não só para a divulgação do conhecimento, da informação, da produção de conhecimento com extrema eficácia e rapidez, mas também meio necessário para que atividades de mobilização e de democratização sejam realizadas e assim possamos, por fim, nos engajar em estratégias de luta e ativismo por meio do cyberespaço. A educação a distância tem se mostrado o meio mais profícuo na divulgação de ideias e temas. Quem não sabe usar a plataforma virtual da web não apenas deixa de aprender e de educar, como mesmo se priva da participação pública, chave inconteste do mergulho para além do óbvio e do enlatado. Se há muito lixo produzido na web, apenas por meio do conhecimento que teremos as ferramentas e critérios para a separação do joio e do trigo. Assim, a própria internet, como espaço de aprendizagem, nos dá chaves para que possamos saber usá-la em proveito próprio.

Palavras chaves: Tradição Ocidental, cultura, declínio, educação pelos clássicos, pluralismo e democracia

                                                           O leque das incertezas

Croyez-moi, mon ami, há muito mais amor do que ódio no mundo. Os céus não sustentam uma farsa, mas um drama cósmico o qual, por felicidade e esperança, estas grandes fiéis amigas da humanidade, haverá de acabar. Há sempre um caminho ainda não trilhado, há sempre um atalho que não fora explorado. Não se pode perder as estribeiras, entregar os pontos, dá-se por vencido nunca. Haverá sempre um modo de conseguirmos, apesar de tudo, sorrir.
Por que digo isso? A leitura memorável de “O Declínio da Civilização Ocidental” de Allan Bloom, bem como as tentativas absurdas de Alexandre Dugin em seu debate com Olavo de Carvalho de justificar uma guerra contra o Ocidente, exigiram de mim, por dever de consciência e por amor ao Ocidente, com alarmante preocupação, fazer minha defesa contra o declínio certeiro e ininterrupto de nossa civilização que se deflagra com nítida rapidez e irreversivelmente diante de nossos olhos. Não se trata então apenas de uma queda, uma decadência que se impôs por um processo de podridão interna, como Bloom e mesmo Nietzsche já antevira. Trata-se também de um processo que se consagra mediante a luta com forças externas implacáveis, configurações geopolíticas potentes. O ódio ao Ocidente é uma realidade cada vez mais presente. Este ódio se mostra ao ódio ao catolicismo, ao protestantismo, aos Estados Unidos, ao Estado de Israel que junto com a Grécia formaram o cristianismo, berço do Ocidente. Mas tal aversão se mostra também quando ocidentais tentam viver de maneira ridícula e superficial práticas orientais desconectadas de suas doutrinas, de suas asceses, de suas tradições e contextos, mostrando que preferem ser engraçados a serem fieis e comprometidos com algo que seja verdadeiramente grande. Num só golpe desferem o punhal não só no Ocidente, mas, sobretudo no Oriente, que acaba tendo de se adaptar a uma visão caricata e tosca de mundo. Tenho como convicção plena de que só poderia verdadeiramente admirar a cultura oriental, com suas matizes, nuances e riquezas, quem antes conhecesse sua própria casa. Porque não se pode comparar a grandeza de alguém quem não possui um critério mínimo de grandeza. A tradição ocidental possui um número infindável de místicos, metafísicos, pensadores da Idade Média, sobretudo que não afirmam realidades, nem conceitos, nem experiências que percam em nível de profundidade com os mestres do Oriente. Mas o homem moderno, incapaz de admirar o que é verdadeiramente nobre e eterno e compactuando aberta, arrogante e solicitamente com sua suprema ignorância como medida de valoração das coisas, regozija-se de desconhecer-se sua própria tradição, restando-lhe apenas assistir comodamente destroçar-se tudo de bom que o Ocidente nos logrou, como a democracia, o conceito de dignidade humana, o valor supremo da vida humana. Ora, falar de esperança diante disso é possível? Há esperança para o que mata qualquer esperança? Se eu julgasse que a vida se reduz à nossa percepção limitada dos acontecimentos, endossaria, indubitavelmente, a tese da “não possibilidade de qualquer esperança”. Mas, como creio que há sempre o imponderável, que sempre há uma contingência a nos espreitar, um acaso que é imprevisível quanto ao momento de sua manifestação, mas que é previsível quanto ao seu surgimento mais cedo ou mais tarde, não posso, não devo e não quero furtar-se a acalentar este último resquício e asilo da esperança.
Há que se desvencilhar de tudo o que nos tem desgastado inutilmente para podermos continuar vivendo com um mínimo de dignidade. Esta é uma regra não só de sobrevivência, mas de higiene mental. Não há momento mais duro e pesado do que aquele que temos de nos decidir a encarar o monstro e nos decidir a lutar contra ele. Só existe uma saída honrosa: a luta. Morrer lutando ou ser vitorioso é consequência inevitável de quem optou, afinal, pelo lado certo. Resistir ao mal pode ser a única substância preciosa de nossa vida, e é grande porque é uma luta contra a destruição e a morte. Não creio que sair vitorioso seja sorte maior do que morrer em campo, uma vez que a verdadeira glória resta àqueles que foram capazes de em nome de algo maior sacrificar suas próprias vidas. Eu aceitei este caminho.

A incerteza do Bem e a certeza do Mal
Por que disse isso tudo? O que pode ser de tão certo quanto a certeza do mal? Como deter um processo de decadência que nos engole rumo ao nada, ou a uma ruína tão miserável quanto o nada?
Não há como deter este processo quando se é um indivíduo único. Portanto, esta tarefa tem de ser de um exército, de quem sabe estar integrado a uma causa maior do que si mesmo. E a tarefa, talvez, seja apenas a de fazer de tudo para retardar o seu processo, a saída mesmo dos desesperados. Estamos, infelizmente, diante de um embate dialético. Existem forças que não se destroem: se transmutam. E esta transmutação as torna irreconhecíveis enquanto mal e por isso quase invencíveis. Você não pode deter sua própria morte, mas se souber que está doente, vai agarrar-se ao último fio de esperança para prolongar a sua vida. E vai fazê-lo quanto mais souber ser sua doença incurável. Não nos cabe, então, criar esperanças vagas ou projetos irrisórios. Cabe-nos lutar pelo que não merece definhar, pois possui um valor eterno e pode mesmo ser o espelho certeiro da humanidade. Cabe-nos deter a morte daquilo que amamos.
Vejam, isto não é defesa insólita de um tradicionalismo, como se qualquer tradição, por si mesma, merecesses ser conservada a todo custo. Mas defendo que sim, a tradição Ocidental Cristã o merece. Não se trata aqui apenas de uma defesa apaixonada de quem é cristã por convicção e pela Graça. Mas de um amor que é fruto do conhecimento. Um amor que sobeja o espírito não por apego atávico, mas por desejo de conhecimento, o pequeno grande ensinamento introdutório de Aristóteles no início do livro Alfa.

Há apenas um modo de fazer o que é o certo: mas há infinitos modos de encontra-lo e descobri-lo.
Na primeira parte deste artigo, na edição anterior, eu falava sobre o encontro que tive com Mortimer Adler. Minha formação filosófica foi muito latinófila e francófila, de modo que eu jamais presumiria que um norte americano mudaria para sempre o curso de meu divagar intelectual e fizesse deste divagar um verdadeiro vagar, uma caminhada que sabe onde quer chegar, o que se está a fazer, porque se está a fazer isso, e como se deve empreender esta viagem.
Adler tivera uma intuição filosófica, existencial e pedagógica muito similar à minha, também na juventude. Ele observara que as instituições educativas funcionavam comumente como instituições promotoras da mediocridade, nivelando e uniformizando os indivíduos. Se o objetivo da educação é homogeneizar os homens, nivelar as experiências, reduzi-las a eventos repetíveis e calculáveis, então não haveria nada pior ao homem do que a educação. Bem, sabemos que nem toda educação se presta a produzir tais resultados deletérios. Qual seria então a melhor educação?
Na terceira parte deste artigo, que já se estendeu demais, eu falarei mais e melhor sobre a Educação Clássica. Por ora, não descreverei com pormenores a Educação Liberal, educação que nasce na Antiguidade e assumiu plena força no Medievo, a qual Adler vai aderir e criar seu Paideia Program. Falarei apenas do egrégio intento deste grande homem, que nos antigos encontrou as ferramentas necessárias para a compreensão da tradição clássica ocidental e o modo como podemos, dentro de nossa própria tradição, nos encontrarmos e pensarmos sobre as grandes questões da humanidade. Este último tentame fora feito no livro “Como pensar sobre as Grandes Ideias”.

Os povos mais sábios
Há povos mais sábios do que aqueles que conhecem, reverenciam e compreendem suas próprias tradições? Porque os japoneses e os judeus são tão admiráveis? Porque descendem de tradições admiráveis e porque valorizam estas tradições. E quando deixarem de o fazê-lo estarão condenados a sucumbir.
Qual a força que possibilitou o predomínio por mil anos de Cristianismo na Europa? Certamente o nível de cultura proporcionado pelo cristianismo. Ora, quando a sua tradição é vista como algo que também o constitui, mesmo que você possa confrontar-se com ela, este confronto nunca é no sentido de aniquilá-la, mas de reatualizá-la, pois caso contrário seria mero suicídio. O confronto está no sentido de poder expandi-la, torna-la ainda mais aberta. E isto é possível, no caso da tradição Ocidental, porque em seu cerne universalista está explicitamente considerada a ideia de inclusão. Assim nasceu o cristianismo. Vejamos o que fala Nikolai Velimoric:
   Pelo seu nascimento Ele incluiu e reuniu todos, desde o mais baixo ao mais alto, o natural e o sobrenatural: estábulo, manjedoura, palha, ovelhas e pastores de um lado; estrelas, anjos, magia e uma origem real davídica de outro.Em sua vida ele incluiu a austeridade dos monges da Índia, de João Batista e dos Nazarenos por um lado; e por outro, o banquete moderado de Confúcio, nas casas dos amigos, na festa matrimonial ou em outras ocasiões solenes.
Sua vida foi entrelaçada à vida de pessoas de todas as classes; homens, mulheres e crianças, judaístas e pagãos idólatras, o Rei Herodes e o pró cônsul Pilatos, sacerdotes e soldados, mercadores e mendigos, sofistas versados e tolos ignorantes, enfermos e sãos, justos e pecadores,  Judeus e Egípcios, Gregos e Romanos, e todos aqueles outros que podiam ser encontrados na Palestina, o lugar de todas as raças e credos.
Ele não foi de modo algum um homem partidário, como os fariseus e os doutores da Lei. Mas ele chamou tanto os fariseus quanto seus inimigos a segui-Lo. Ele foi ao templo para rezar, mas Ele rezou também sozinho no deserto. Ele guardou o Sábado, mas Ele também quebrou o Sábado ao curar um doente e fazer o bem neste santo dia. Ele não veio destruir a Lei, mas ele trouxe algo maior do que a Lei e ainda incluiu a Lei mesma, isto é, amor e misericórdia.
Ele censurou pessoas que costumavam rezar dizendo: “Senhor! Senhor!”. Ainda que Ele mesmo rezasse frequentemente. Ele censurou aqueles que ficavam jejuando, ainda que Ele mesmo jejuasse. O que Ele realmente olhava não era nem para a oração, nem para o jejum, mas o espírito em que se jejuava ou rezava.
Ele ordenou o povo a dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Ele não censurou esta ou aquela forma de governo, nem acentuou nem o Monarquismo, Republicanismo, ou Socialismo como formas preferíveis sobre outras. Sob Este esquema todas as formas de governo estão incluídas como igualmente boas ou más de acordo com o lugar que elas reservam para Deus, quais dons se dão regularmente a Deus e por qual espírito eles são inspirados.
Ele seguiu o costume de Sua nação, e não os quebrou ou se evadiu propositadamente. Ele tocou comida de acordo com a Lei, e foi à Cidade Santa e tomou parte na veneração do templo (“ainda que Ele fosse maior do que o templo!”), seguindo a Lei. Parece que Ele não excluiu nenhuma forma de veneração ou vida social, ainda que Ele desprezasse o espírito impuro e mesquinho com o qual os hipócritas ornavam estas formas. E quando Ele veio para a disputa, Ele, o Mensageiro de um novo espírito, naturalmente procurou salvar o espírito puro sem referência a qualquer forma do que uma forma ornada de espírito impuro. Finalmente ele se sentiu constrangido a dizer: “Não é o que entra na boca do homem que o torna impuro”, ou “comer com as mãos não lavadas não torna o homem impuro”, ou “Tu, quando Tu fores rezar, entra no teu quarto”, etc.
E assim também Ele abraçou todas as nacionalidades e raças. Nada daquilo que Deus criou era impuro para Ele, nada a não ser o espírito impuro. Quando o centurião romano pediu-lhe ajuda, Ele a deu prontamente. E quando o povo além das fronteiras israelitas, das costas de Tiro e Sidônia, creram nEle, Ele não deu ouvidos às advertências exclusivistas de Seus discípulos, mas distribui mesmo lá Sua divina misericórdia. Ele foi cuidadoso mesmo com as pessoas de Nínive. E quando Ele enviou Seus discípulos, Ele os enviou a “todas as nações”.
Finalmente ele incluiu o natural e o sobrenatural. Ele conversou com espíritos. Ele viu satã como o relâmpago caído do céu. Ele esteve entre Pedro, João e Tiago de um lado, e Moisés e Elias de outro. Todas as pessoas viram lírios no campo e aves no céu, mas Ele viu além, Ele viu como, Seu Pai vestia os lírios do campo e como Ele alimentava os pássaros. Ele uniu o natural e o sobrenatural em seus ensinamentos.
“Amai vossos amigos”, era o ensinamento natural. Mas Ele acrescentou: “e aqueles que vos odeiam e perseguem”, que era sobrenatural.
“Dai a quem vos dá”, era um ensinamento natural. Mas Ele acrescentou: “e aqueles que Vos amaldiçoam”, que era sobrenatural.
E Ele uniu o natural e o sobrenatural em sua morte. Ele sofreu e morreu em agonia. Ele ressuscitou da morte, desceu do Céu e ascendeu ao Céu. Por Ele houve tão poucos limites entre Céu e Terra, entre Natureza e SobreNatureza, como entre Israel e Canaã, ou entre homem e homem, ou forma e forma.
Sua sabedoria era inclusiva do início ao fim. O que Ele excluiu, salvo o espírito impuro? Seus discípulos eram tão exclusivistas como qualquer um costuma ser, ser exclusivista é julgar e agir de acordo com a sabedoria natural. Mas quando eles olharam para Ele, eles foram reconciliados. Era a Santa sabedoria, em que qualquer um podia encontrar uma morada para si mesmo, todo discípulo, toda nação, toda forma de veneração, tudo – salvo o espírito impuro.( http://teologosortodoxos.blogspot.com.br/2012/10/a-agonia-da-igreja.html)

O cristianismo nasceu como sabedoria inclusiva. Não meramente como uma seita judaica, mas como uma promessa de salvação universal que dizia respeito a todos. Não se pode pensar o Ocidente à parte disso. Mesmo todos os movimentos nacionalistas ou de afirmação da soberania nacional ocidentais, não o fazem com vistas a anular os demais, mas com o pressuposto de que interesses externos não podem colocar em risco a vida do próprio povo. Em suma, eu tenho um compromisso com o Outro, mas este compromisso não pode levar ao aniquilamento do Eu, da minha própria identidade. A inclusão do Outro exige um nível mínimo de reciprocidade, senão é apenas uma anedota suicida. E assim é a questão ao apego à tradição: apenas um povo sem amor a si mesmo, sem um mínimo de autoconfiança, autoestima, pode negar o seu passado. Reassumir o papel e o valor do passado naquilo que nós somos, reconciliar-nos com ele, pode permitir uma atitude crítica capaz de rever, rejeitar e consertar erros passados. Uma cultura sem confiança em seu próprio passado é incapaz de encontrar sentido em si mesma. Ou irá para a Cultura da Nova Era, uma mixórdia de elementos mal compreendidos e mal conectados pegos ao sabor dos ventos, da própria tradição, ou, então, para as tropas do senhor Dugin, que não vê a hora de juntar o nacionalismo russo com o califado islâmico e todos os inconformados para varrer o Ocidente da face da terra. Não há amigo, o que fazer: ou entramos na luta ou então sucumbir é o fim inevitável. Declínio cultural ocasionado não apenas por seus inimigos, mas por uma força interna misteriosa malévola, que vai reduzir toda a distinção entre opinião e conhecimento, e relativizando os valores de Bem, Belo e Verdadeiro acabarão por solapar qualquer possibilidade de valoração humana, uma vez que tudo se reduzirá ao mesmo.
Não nos enganemos então: apenas a vitória do Ocidente Cristão pode deter a colonização ocidental do mundo, uma vez que esta colonização não é fruto do cristianismo, mas de uma elite financeira que controla o mundo. A globalização é para todos o que amam o seu passado o que há de pior, uma vez que ele nega cada vez mais um acesso privilegiado a ele, promovendo, por outro lado, uma exaltação acrítica e infantil do futuro, que nada mais é do que o nivelamento e desconsideração de todas as diferenças significativas do mundo. Retornar aos clássicos, aprender com eles, seja através de ambientes educativos presenciais, seja em ambientes virtuais é estratégia de sobrevivência e não um luxo burguês, como pareceria à primeira vista.

Quais clássicos?
Não vou me estender mais para não turvar a vista de meu paciente leitor. O grande paradoxo que norteia a vida de todos nós que fizemos da Educação a substância de nossas vidas, reside na impossibilidade de compreender porque o que é mais urgente de se ensinar, não conseguimos nunca ensinar verdadeiramente e profundamente.
Deixarei pistas de como podemos construir pontes de acesso aos clássicos pelo Ambiente Virtual de Aprendizagem, e rogo aos céus o testemunho de meu tentame.
Qualquer livro que esteja em Diálogo com outros livros dentro de um contexto sócio-cultural-histórico amplo, é um clássico. Por isso, rememorando Ítalo Calvino, um “clássico não é apenas lido, mas relido”. Creio que esta definição geral é capaz de abarcar a especificidade da questão sem, contudo, reduzi-la a um amálgama de elucubrações desnecessárias a fim de comprovar porque A é um clássico e B não seria. Ademais, é capaz de mostrar como mesmo obras que poderiam estar ‘fora da tradição’ Ocidental, como a tradição oral ameríndia pré-colombiana, ou a literatura africana, uma vez que, entrando em confronto ou em diálogo com a tradição ocidental, pelo princípio da inclusão que marca a tradição ocidental, não poderiam ser negligenciados por ela. O mesmo valeria para a literatura judaica e islâmica que também ajudaram a formar a cultura ocidental.
Veríamos assim um território bastante vasto para ser conquistado e quanto mais vasto, mais interessante, mais inexplorado, maior também o pecado de ignorá-lo. Consoante a preguiça dos intelectuais, que apenas têm servido de propaganda contra a tradição cristã, a tradição ocidental tem sido cada vez mais um espaço vazio, quando deveriam ser introduzidas e ensinadas às crianças desde cedo. Crianças não têm sido educadas, nem conhecem nada de sua própria cultura. Um exemplo corrente disso é não conhecerem museus, não frequentarem bibliotecas, teatros, não conhecerem os grandes heróis da literatura, o que lhes infligiria um desejo enorme por virtude e heroísmo. As crianças estão sendo abarrotadas com conceitos forjados, com uma linguagem cada vez mais asséptica que disciplina seus pensamentos e estão apenas sendo doutrinadas. A experiência com a arte, com a música e com atividades físicas sempre fora a etapa inicial da educação dos pequenos. Arte, aqui, é dita ser a técnica de imitação que procura copiar o Belo. Estariam incluídas nas artes e música as fábulas, poesias, as artes pictóricas e a escultura.
Se o desejo de conhecimento é algo natural ao homem, ensinamento aristotélico que não é difícil de ser atestado, e se o filosofar nasce do espanto, outra afirmação aristotélica, embora não exclusiva dele, então é preciso que nosso amor ao Belo nos conduza a uma incessante experiência de admiração e espanto, sem a qual o desejo de conhecimento não se atualiza.
Os clássicos da literatura precisam ser constantemente conhecidos. Quem lê os 10 Mandamentos acredita ou é levado a crer, que o adultério é uma transgressão moral e que é interditado por Deus. Quem lê Ana Karenina, compreende que esta transgressão moral não é totalmente destituída de virtude, que pode até inspirar certo heroísmo com o aniquilamento de si mesmo, uma vez que a transgressão moral sempre é também um reposicionamento existencial. Quem lê os 10 Mandamentos Bíblicos aprende também, por exemplo, que matar é pecado. Quem lê “Crime e Castigo”, no entanto, compreende que há um limite no ato de matar que é imposto pela própria consciência e uma vez que se negligencie isto se pagará um tributo de um modo ou de outro. Ou assumindo a culpa ou enlouquecendo ou se despersonalizando por completo.
Se a filosofia e a religião podem trabalhar com valores enquanto entes necessários e eternos, somente a Literatura, o Cinema e o Teatro conseguem nos mostrar as consequências que podemos ser conduzidos quando aceitamos ou rejeitamos tais valores. Somente eles problematizam verdadeiramente a direção humana que cada valor encerra em si mesmo.

Clássicos em Ambiente Virtual
Não há dúvidas de que não existe atualmente em curso nenhum ambiente que permita a troca, a discussão, a mútua descoberta e o encontro com o inaudito como a internet. A web possui um poder de revelação do nosso nível de ignorância que só perde para o Oráculo de Delfos. Assim, fomentar fóruns de discussão em AVA para a leitura e a análise de obras clássicas possui uma dimensão estratégica fantástica e amplia consideravelmente o campo de alcance dos clássicos.
T. S. Eliot dizia que um “livro que não desafia a sua inteligência, nem merece ser lido”. Isso é verdade. A boa leitura exige sempre um mobilizar da experiência de modo que não apenas diga o que queria dizer, mas diga os diferentes caminhos que as coisas podem ser enunciadas, as experiências podem acontecer. O que mais exige sacrifício de nós, é o que mais nos traz prazer, como já ensinava o grande pedagogo francês Alain.
Conhecer obras clássicas da filosofia, da literatura, da educação e da história da ciência nos permite, inevitavelmente, ter um instinto rápido para saber distinguir o conhecimento da mera opinião vaga. A defesa de uma atmosfera pluralista de discussão não pode significar a redução do conhecimento à opinião, nem ao nivelamento de tudo à mera opinião. Seriam todas as religiões questão de opinião? Ora, considerando que tradições como a Egípcia, a Babilônica, A Cristã, A Hindu, a Budista, a Islâmica, a Judaica, por exemplo, foram civilizações milenares, enquanto opiniões só podem se firmar por longo período de tempo se forem opiniões certas, não se pode reduzir todo este conhecimento civilizacional como se não possuísse algo de universal. É descabido comparar qualquer uma destas tradições com movimentos religiosos circunstanciais e situacionais, ou considerar que possuam algum peso. Só o tempo pode dizer a ponderação de cada um. Quem quer que se debruce sobre livros como a Bíblia, o Tao Te Ching, o Alcorão, O Livro das Mutações, o Bhagavad Gita, por exemplo, saberá que não se está diante de uma literatura qualquer. São obras clássicas do Pensamento Universal e qualquer pessoa culta do Ocidente deveria demonstrar interesse em conhecê-las na medida em que são obras que podem dialogar sim com o Ocidente.

Conclusão:
O AVA precisa ser cada vez mais explorado como um local privilegiado de acesso à Alta Cultura, ainda que saibamos que a internet não filtre a alta cultura da baixa cultura, e é bom que seja assim.
Precisamos nos convencer cada vez mais de que nosso apego ao nosso passado grego, judaico, romano e cristão poderá nos possibilitar compreender o lugar e a imagem de homem que foi construída no Ocidente, a qual é o cerne da noção de democracia e dignidade humana.
Temos muito a aprender com os demais povos e não podemos nos deixar sucumbir à arrogância, que é muitas vezes fruto de julgamentos precipitados daqueles que não conhecem nem a si mesmo e logicamente, nem aos outros. O primado e a excelência da educação exige o desenvolvimento contínuo de um senso de responsabilidade que prefere amar e cuidar do outro a priori para então sim poder conhecê-lo. Quem acredita conhecer antes de amar inviabiliza tanto o amor quanto o conhecimento, pois a gratuidade está no amor e não no conhecimento.
Obviamente, porém, isto não pode significar a imposição de padrões ocidentais de comportamento, já que esta homogeneização do mundo também é inimiga da tradição ocidental. Mas pode sim e deve significar a imposição do valor referente à dignidade humana e o homem sempre como um fim em si e nunca como um meio. Considerar esta imposição uma violência é não levar em conta que apenas este valor garante a proteção de todas as diferenças e a manutenção das diferentes culturas que estão no globo. Nem toda imposição é violência. Se imponho uma regra que irá salvar vidas, que mal há nesta regra? E se for uma violência, considere, então, que violência não é sinônimo de mal.
A despeito, então, de todo o mal que vem corroendo o Ocidente por dentro, seu relativismo inconsequente, sua escolha aberrante em ser ignorante de si mesmo, seu niilismo, sua juventude vazia e infértil, seu processo inevitável de auto aniquilamento, e a despeito também de todos os seus inimigos externos, o Islam, que de religião gloriosa em termos místicos e filosóficos tornou-se meramente um movimento político de implantação do califado, ou países como China e Rússia que declaram que o Ocidente precisa desaparecer, creio que ainda o grande recado do Ocidente precisa estar respaldado no ensinamento do Deuteronômio, que resume toda a Lei e os Ensinamentos dos Profetas: “Ame a Deus com toda a sua força de alma e ao próximo como a si mesmo”. Sem autorespeito, sem auto-amor, não nasce nenhum amor genuíno. Exigir que o Ocidente se verta em uma consciência culpada e disso exigir amor, ou respeito, ou reparação, é violar a própria Lei do amor, que é um movimento gratuito fruto não de uma consciência culpada, mas liberta da culpa e plena de entrega.
Ao violar este preceito que exige que para todo amor haja um auto-amor precedente, o amor que nasceria seria subserviente, culpado, um amor que aniquilando a si acabaria por idolatrar aos Outros. Ora, apenas Deus pode ser venerado. E Deus é na tradição Ocidental aquele que se deixou conhecer parcialmente pela Revelação, uma vez que o homem é capaz de verdade e Deus é também uma realidade captável pelo intelecto. Mas é também um Deus escondido, ou seja, inacessível, inobjetivável, como aliás é qualquer pessoa. Se Deus estivesse apenas na esfera do inefável, estaríamos totalmente sujeitos ao arbítrio do desconhecido. Se Ele fosse plenamente conhecível, não seria Deus, posto que um intelecto finito, o humano, não pode compreender plenamente o infinito. Mas porque Deus ora se revela, ora se esconde que podemos venerá-lo ante a perfeição que intuímos e conhecemos e ante também a imensidão que nos escapa.
Sob o espelho do Outro ou dos Outros, como imagem e semelhança de Deus, tal como nós, podemos estabelecer não só os planos de convivência e diálogo, mas sobretudo de solidariedade e amor.
Que frente ao progresso da iniquidade nosso amor não esmoreça, e nem se esvaia a fé na Verdade Encarnada que foi o grande ensinamento do Ocidente, e seu grande legado.

Bibliografia:
ADLER, M. Como ler livros. São Paulo: É Realizações, 2010.
____________. Como Pensar sobre as Grandes Ideias. São Paulo: É Realizações, 2015.
BLOOM, A. O Declínio da Cultura Ocidental. São Paulo: Beste Seller, 1987.
CARVALHO, O. de A Nova Era e a revolução Cultural. Campinas: Vide Editorial, 2014, 4ª. Edição.
____________. Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Campinas: Vide Editorial, 2012.  
VELIMIROVIC, K. Short Works of Nikolai Velimirovic, Bibliobazar, 2008   







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