domingo, 6 de novembro de 2016



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sábado, 29 de outubro de 2016

e-mail a um amigo querido

Transcrevo um e-mail que acabei de enviar.


Oi querido,
Estava querendo escrever antes, mas com as crianças correndo pela casa, escrevo tudo errado. Bem, agora que tive mais tempo de meditar sobre o assunto, e iluminada pelas orações, ouso dizer o seguinte.
O processo de imanentização no Ocidente, que é bastante claro na obra de Espinosa, acabou por reivindicar o caráter natural, depois histórico, depois sociológico, depois cultural, depois psicológico e assim vai, dos fenômenos. Não quero dizer que não existam aspectos naturais, sociológicos, históricos ou culturais nos acontecimentos, mas que o Ocidente, por sua arrogância, tendeu a acreditar que estas formas de redução seriam capazes de dar conta do conjunto, da Totalidade, e é óbvio que isso, mais cedo ou mais tarde, desembocaria nas diversas formas de totalitarismo político e epistemológico do século XX.
Se a infalibilidade não está ligada também a inefabilidade, como isso não poderia acontecer? Parece-me óbvio que a infalibilidade da razão, da história, da psique, ou seja lá do que for, conduzem inevitavelmente ao totalitarismo da natureza, razão e da história e, obviamente, a todas estas aberrações do século XX que falavam em leis da história, em leis naturais que justificavam eugenias , e por ai vai.
Quando vejo que bastaria a nós conhecer a tradição grega cristã, que bastaria meditá-la, amá-la e respeitá-la para evitar tudo o que foi feito contra o homem nos últimos séculos... dói -me o coração o tamanho de nossa burrice. Alguém pode dizer: bastaria conhecer Cristo, e eu concordaria. Mas não se conhece Cristo, em plenitude, fora de sua Igreja.
Abraços,

rochelle

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Como o problema é bem mais embaixo


Não vejo, sinceramente, como o tomismo não poderia dar vazão ao espírito humanista que se seguiu após a escolástica. Para mim, como eu já disse muitas vezes, o humanismo é consequência inevitável da analogia entis que ao invés de conceber Deus como o Ente inacessível por sua essência e acessível por suas energias, acabou por colocar Deus como imagem e semelhança do homem a partir do conceito de analogia. Isso é óbvio: como podemos fazer analogia com o inacessível? Ou seria falando do homem como em si inacessível, que é o que faz a teologia ortodoxa, ou falando de Deus como se fala do homem, que é o que faz tanto o catolicismo quanto o protestantismo. Espinosa viu no deus escolástico um deus antropomórfico, e esta intuição de Espinosa, contra a qual lutei com todas as minhas forças, estava absolutamente certa.
O catolicismo romano é apenas a continuidade da filosofia e metafísica platônica e aristotélica, as quais deram origem a uma série de heresias e não a sua transfiguração, como em São Dionísio. Com São Dionísio o helenismo se cristianiza e se transfigura. Com Agostinho, São Tomás, temos apenas a continuidade do pensamento grego, injetando-se nele uma certa concepção trinitária (a qual é tão inflexível quanto o Uno plotiniano) , na qual as pessoas divinas estão subordinadas a uma unidade que é a priori garantidora delas. Por isso mesmo o Filoque: o Filioque não seria as relações internas que se estabelecem entre duas pessoas engendrando-se uma terceira? Não existe nele uma primazia da Unidade em detrimento das pessoas?
Por isso estas vertentes perenialistas dentro do catolicismo romano, que acreditam existir uma filosofia perene a qual se consumaria com o cristianismo. O cristianismo teve uma sabedoria inclusiva não no sentido de sair incorporando tudo, mas no sentido de ir transfigurando aquilo que poderia, de certo modo, servir como prenúncio da deificação da carne, sua transfiguração, que é o que está por trás da vida sacramental. Assim, eu não vejo, sinceramente, como uma concepção perenialista não possa conduzir, inevitavelmente a certo ecumenismo, ainda que o cristianismo possa ser sua palavra final, seria um jeito de se conseguir uma unidade transcendente de tudo, um jeito pagão e não cristão de se resolver as coisas.
A cada dia que passa eu me convenço de apenas uma coisa: só existe uma fé verdadeira, a ortodoxa. Existem cristãos que mesmo no erro, por pura misericórdia de Deus, possuem acesso a estas energias devido mesmo ao seu alto grau de esforço de viver em comunhão com Deus. Mas o catolicismo romano é tão errado quanto o protestantismo, uma vez que não poderia não ter a ele como consequência necessária. Não nasceu o nominalismo no seio do próprio catolicismo? Não fora Guilherme de Ockam discípulo de Duns Scotus? O dogma da Imaculada Conceição, pensado por Duns Scotus, não mostra que Maria, toda pura, fora santificada e transfigurada pelo próprio Verbo Encarnado, mas como pura e santa independente dele. Neste dogma não vemos a deificação da matéria, apenas uma visão gnóstica na qual a matéria, que deveria ser impura, teve uma origem diversa de qualquer outra, sendo esta matéria não mais impura. Como seria então matéria? Parece-me que é quase dizer que Maria teria outra matéria que não a nossa, uma espécie de eón, quando não parece que ela seria o próprio Espírito Santo, reproduzindo-se, assim, a trindade pagã de Horus, Isis e Osiris, Pai, Mãe e Filho. Estou convencida a estudar mais profundamente o tomismo para poder refutá-lo com Gregório Palamas. O sentido dos meus estudos tem sido este.
 O empirismo naturalista de São Tomás é uma grande saída filosófica se estamos num universo pagão e grego, pois é a consumação do próprio aristotelismo, mas é nada perto de tudo o que a Teologia Mística nos oferece enquanto experimentação das energias divinas, e o próprio Tomás se deu conta disso. Em suma, percebo que existem almas santas que querem dialogar com o catolicismo romano, tentando aprender algo com os católicos, mas vou ser bem sincera. Como alguém que conhece bem além da média o catolicismo romano e que está começando a conhecer a ortodoxia, só existe uma única saída: o retorno às origens. A ortodoxia é a casa sobre a Rocha, o Cristo. E sendo assim, ela conseguiu se manter inabalável.
Perdoe-me se minha visão é por demais fechada: esta ideia de que romanos, protestantes e ortodoxos se entendem em termos místicos não me convence. Seria o mesmo que entrar na esparrela de Thomas Merton de que budistas, hinduístas e cristãos se entendem num sentido místico. Ou se está com Cristo, a rocha da ortodoxia, ou se está com o mundo, mesmo que o mundo possa produzir também um tipo específico de misticismo. Porque quando falo de “mundo” não falo de coisas materiais, mas do espírito do mundo. Enquanto o catolicismo romano é apenas a continuidade da filosofia grega, não tem como não cair no gnosticismo no qual entraram todos aqueles que deram um peso maior ao platonismo e ao aristotelismo, mesmo que se tratando de questões cristãs.

Conhecimento e Vida

A maioria das pessoas busca conhecer apenas para preencher um certo apetite natural por conhecimento.
Nossa experiência com o conhecimento deveria ser a de sermos mobilizados por ele a fazermos algo, a sairmos do marasmo, a revolucionarmos nosso próprio modo de existência.
Não se pode ter uma relação com o desconhecido como tem o turista, que o vê de longe como coisa pitoresca, tira umas fotos e depois junta-os a uma coleção artificial.
Mas tem de ser como de um aventureiro, como foram os navegantes portugueses, que sai em busca de algo novo e precisará se alojar neste novo e encontrar ali um outro modo de vida.
Conhecimento e vida são indissociáveis. A mentalidade liberal, no entanto, o considera como uma mercadoria como qualquer outra e, assim, busca reproduzi-lo para fins de apetição e não de auto transformação.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A educação dietética e física: para tudo, autoconhecimento é pressuposto e meta

A educação dietética e física: para tudo, autoconhecimento é pressuposto e meta
                Os antigos gregos sabiam que a educação do corpo, que passava pela música e pela ginástica, era imprescindível sem uma dietética, ou seja, sem uma alimentação adequada. Ainda que existam muitos profissionais da nutrição e alimentos que hoje nos sejam oferecidos como saudáveis, a bem da verdade é que a alimentação saudável parece ser aquela com o máximo de produtos in natura, ou seja, sem que tenham passado por qualquer processo de industrialização, que eles sejam variados, de várias cores, numa quantidade não muito grande, para não dar vazão à gula e nem muito pequena, para poder dar força e energia para o enfrentamento da vida. Deve-se comer tanto alimentos de origem animal quanto vegetal, priorizando os vegetais quando se deseja passar por algum processo de desintoxicação mais severo, ainda que atividades físicas ajudem muito nisso também.
                É sim necessária uma educação alimentar, e é sim necessário que determinados alimentos e práticas sejam evitados, ou exercidos apenas de forma muito moderada. É óbvio para qualquer um que um corpo intoxicado por alimentos industrializados, sem o consumo regular de folhas, legumes, castanhas, nozes, brotos, grãos, frutas e outras benesses dadas pela Natureza vão sempre estar mais cansados, mais fáceis de adoecer e incapazes de bem exercer a atividade intelectual. Por outro lado, estamos tão viciados em alimentos ruins e sem qualquer valor nutricional mas com alguma carga de valor afetivo e emocional, que não seria fácil nos livrarmos deles, pois adoeceríamos de outras formas não físicas. Para tais casos, acho prudente o seu consumo moderado: é como se alguém te dissesse assim. Tudo bem, consuma-o, mas bem pouco, não se deixe viciar totalmente por ele, pois ele é perigoso.
                Foi assim e é assim o cigarro para mim. Tenho uma cota de cigarros permitidos por dia e faz mais de dez anos que sigo esta cota. Não fumo mais que dois cigarros por dia, um após o almoço e outro após o jantar. Se chego a fumar três, isso é uma exceção. E nos dias em que faço jejum, quartas e sextas, procuro não fumar, ainda que muitas vezes eu não o consiga. E existem dias que nem me lembro de fumar. Eu sei que não é o ideal, mas foi o que eu consegui para mim. A sabedoria exige que a gente vá aprendendo a saber como conjugar nossos defeitos de modo a não nos prejudicar totalmente e a gozar de certos prazeres que, embora nocivos, se forem completamente extirpados, podem nos trazer males de alma.
                Não consigo seguir nada à risca. É um problema de temperamento. Fora as orações que me são prescritas e os jejuns de quarta e sexta, não consigo ser disciplinada com nada. Sabe Deus como consegui fazer coisas na vida. Mas com relação a este meu vício, eu nunca conheci ninguém mais disciplinado do que eu.
                O processo de autoconhecimento precisa ser estar imanente a qualquer outro conhecimento que se adquira. Não basta você saber se algo é bom ou ruim, se é benéfico ou não em si mesmo. Isto só tem sentido quando puder ser aplicado à sua vida, quando puder fazer algum sentido maior para você. Não se trata de subjetivismo, mas de saber que não há vida para o objeto se não houver relação simbiótica entre ele e o sujeito. Quanto mais você se conhece, mais poderá usufruir melhor do conhecimento que adquire, mais poderá também selecionar que tipo de conhecimento fará mais sentido para você e quais são aqueles saberes que lhe colocam numa situação mais ativa e expandirão a sua consciência.

                O que mais tenho ouvido são pessoas dizendo: "o que eu devo estudar?". Eu não posso dizer o que uma pessoa deve estudar, porque isso exigiria que eu a conhecesse muito bem. Tudo o que eu recomendo a ler são livros que desafiaram a minha inteligência e que provavelmente poderão surtir efeitos semelhantes nas demais pessoas: mas isso é pouco. Procure conhecer-se melhor, ver no que tem verdadeira aptidão e selecione também, que tipo de conhecimento lhe é doloroso mas exigirá de você disciplina e estudo e lhe expandirá a inteligência após tê-lo adquirido. Estudar uma língua ajuda muito nisso, pois exige de você sair de si. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Só um breve comentário

Perdoem-me a intromissão, mas o que eu vejo no catolicismo romano é um divórcio inconciliável entre a tradição e o evangelho, que só consegue mesmo ser conciliado por almas muito santas, mas não pela maioria dos católicos. Não se deve ter de fazer a opção entre um e outro: ambos constituem o munus sagrado que foi confiado aos apóstolos, de modo que deveriam estar totalmente implicados um no outro.
Gosto de usar o véu como um símbolo de resistência anti secular, mas gosto sobretudo da mansidão e da misericórdia também que são pregadas pelos papas pós conciliares. Admiro quem consegue ser bom católico: eu o tentei e vivi um inferno, porque ou eu optava pela Tradição ou pelo Evangelho.
Estas querelas no catolicismo romano me parecem infindáveis e acabam por agredir o sentido mesmo da catolicidade que também deveria estar na Tradição. Minha única saída foi tornar-me cristã ortodoxa. Foi a melhor coisa que fiz.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Cuidado com os que se julgam especialistas em educação

A educação tem sido uma arma poderosa na busca por ampliação da condição de sujeito (quem é o sujeito, ou quem são os sujeitos?), da intersubjetividade (como elaborar um conhecimento cujo sentido diga respeito a todos nós?) e também da emancipação (como podemos nos livrar das diversas amarras que nos prendem a sistemas totalitários de análise e poder?).
Mas de todas estas perspectivas, uma chama muito profundamente a minha atenção: é a questão da ampliação da consciência. O que é uma consciência ampliada? Não conheço ninguém que julgue não ter uma consciência ampliada, mas a verdade é que quase todos nós temos uma consciência muito restrita e reduzida às nossas experiências. Desta forma a leitura, principalmente da literatura e da filosofia, bem como viajar, conhecer e ouvir a boa música, procurar assumir diferentes papéis sociais, conhecer todo o tipo de gente e ter coragem, são pressupostos necessários indispensáveis para a ampliação da consciência.
Pode-se muito bem usar-se o jargão de ampliação da consciência para se vender uma ideia, uma ideologia, apenas por ela ser nova. Creio que estamos num processo ininterrupto de busca desta ampliação, mas se não nos atermos a estes pressupostos o risco que corremos é de ficarmos apenas repetindo fraseologias, não mudarmos nada de substancial em nós e fazermos da educação uma panaceia, que na verdade funcionaria apenas como um placebo.
O processo de autoeducação vai além de discussão de políticas educacionais, ou modelos de gestão educacional, ou mesmo de inclusão de temas e de sujeitos, ainda que isto tudo seja sumamente importante. O processo de autoeducação visa você se tornar um indivíduo cuja erudição irá mudar substancialmente a sua vida e dos demais à sua volta, proporcionando-lhes uma compreensão mais integrada dos fenômenos, suas causas, implicações e aberturas e principalmente, um indivíduo cuja autoconsciência não seja apenas social ou histórica, mas uma autoconsciência ontológica e integrada ao sentido último da sua própria vida. Quem tem nos proporcionado isto? Que escola o tem feito? vejam que os mestres da Antiguidade prometiam isto aos seus pupilos. A resposta, não se podendo mais oferecer uma educação que nos transforme ontologicamente, oferecemos com o nome de educação apenas uma série de conteúdos que podem se revelar pragmaticamente úteis para a manutenção do próprio sistema que nos sufoca.